Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

VOZ DOS OUVIDORES > O POVO

Plínio Bortolotti

18/12/2007 na edição 464

‘Responda rápido. Onde a mídia é mais livre: no Brasil ou na Venezuela? Se depender do julgamento dos próprios cidadãos de cada país, a Venezuela se sai bem melhor do que o Brasil. Pesquisa encomendada pelo Serviço Mundial da BBC mostra que 63% dos venezuelanos disseram acreditar na liberdade de imprensa de seu país; o índice cai para 52% no Brasil. Entre os 14 países pesquisados, a média geral obtida na resposta à pergunta sobre a liberdade da mídia para cobrir os fatos de forma ´precisa, verdadeira e imparcial´, foi de 56% – menor que a média da Venezuela e maior que a do Brasil.

O resultado obtido na Venezuela confronta a classificação do país em listas internacionais sobre a liberdade de imprensa. Pesquisa divulgada em outubro pela organização não-governamental Repórteres Sem Fronteiras, por exemplo, põe a Venezuela em um dos últimos lugares no quesito liberdade de imprensa – o número 114 – em uma lista de 169 países. O Brasil ficou na 84ª posição. Segundo o relatório da BBC, ´a percepção dos venezuelanos sobre o desempenho da mídia é consideravelmente mais positiva do que em outros países da América Latina´, relatando que 42% dos entrevistados consideraram ´bom` o trabalho dos órgãos de comunicação controlados pelo governo. No Brasil e no México o índice é de 25%.

Quanto aos brasileiros, eles se preocupam bastante com o oligopólio da mídia, as empresas de comunicação em mãos de poucos proprietários privados. Segundo o levantamento, 80% dos brasileiros acreditam que esse controle pode levar à ´exposição da visão política` dos donos das empresas no noticiário. Entrevistados de outros países tiveram percepção parecida, como no México (76%), nos Estados Unidos (74%) e na Grã-Bretanha (71%).

A avaliação dos brasileiros sobre o desempenho dos meios de comunicação financiados pelo governo é negativa. Considerando-se a opinião das pessoas em relação à ´honestidade` e à ´precisão` com que os órgãos de comunicação públicos tratam a notícia, a maioria das avaliações fica entre ´pobre` (43%) e ´mediana` (32%), sendo que 25% consideram ´boa´. Sobre o desempenho das empresas privadas, 37% responderam que elas fazem um ´bom` trabalho, 38% afirmam que é ´mediano` e 25% dizem que a atuação é ´pobre´.

Os brasileiros se mostraram os mais interessados em participar do processo de produção do noticiário: 74% disseram que gostariam de ´ser ouvidos` na escolha das notícias. Em seguida vieram os mexicanos, com 63%; os russos, com 29%, foram os entrevistados que se mostraram menos interessados em influenciar na escolha do que é noticiado.

A contraposição entre liberdade de imprensa e estabilidade social dividiu os brasileiros: 52% opinaram que a liberdade para informar os fatos de forma ´honesta e verdadeira` é importante para garantir uma ´sociedade justa´, ainda que a conseqüência seja ´debates desagradáveis ou efervescências sociais´. Para 48% a ´harmonia e a paz social são mais importantes` e, portanto, o eventual controle das notícias seria aceitável em favor de uma ´sociedade justa´. A Venezuela foi um dos países cuja população mais priorizou a liberdade de imprensa em detrimento da estabilidade social (64%).

No aspecto ´liberdade de imprensa e estabilidade social` também é dividida a opinião mundial: 52% identificaram-se com a afirmação que destaca a liberdade de imprensa; 40% preferem a harmonia social, mesmo que seja necessário controlar o noticiário. Mas é de se observar que os moradores de países ricos tendem a se posicionar pela liberdade de imprensa, enquanto que os habitantes de nações pobres ou em desenvolvimento aceitam limitações em favor de mais justiça social.

Algumas coisas a que a pesquisa leva a pensar: a) dúvida: o que um entrevistado leva em conta para responder sobre o nível de liberdade de imprensa em seu país? O mais evidente, a possível censura ou interferência governamental? A variedade de meios de comunicação de que pode dispor?; b) preocupação: são muitas pessoas, incluindo os entrevistados no Brasil, admitindo censura à imprensa em favor da ´estabilidade social´. É grave quando a informação deixa de ser considerada um bem essencial; c) alerta: o ímpeto participativo é algo sobre o qual já escrevi por diversas vezes nesta coluna: o leitor não se contenta mais com a passividade. A pesquisa mostra que três em cada quatro brasileiros querem participar da produção das notícias – é muita gente gritando – e já está na hora de ouvi-los; d) certeza: revelou-se a percepção da inaceitável concentração da propriedade midiática no Brasil e no mundo, evidência que deixou de ser apenas tese acadêmica para transformar-se em preocupação de massa; e) contradição: os mesmos que pedem mais participação e enxergam a concentração da propriedade como um mal, admitem que a imprensa pode ser censurada.

No mais, o dilema do título é falso: não existe justiça social sem liberdade de imprensa.

Estudo

A pesquisa sobre liberdade de imprensa ouviu 11.344 pessoas em 14 países, entre os dias 1º de outubro e 21 de novembro. A Oceania foi o único continente a ficar fora do levantamento. O estudo foi encomendado como parte das comemorações do 75º aniversário do Serviço Mundial da BBC, tendo sido realizado pelas empresas GlobeScan e Synovate.

A propósito, a British Broadcasting Corporation é a poderosa rede pública de rádio e TV do Reino Unido, cujas características de independência, isenção e equilíbrio são postas à prova a cada vez que precisa confrontar os interesses do governo, como aconteceu recentemente em relação à guerra do Iraque. A BBC é um bom exemplo no qual a nascente TV Brasil poderia se espelhar.

Coluna

A coluna foi escrita tendo como base matérias publicadas pelo portal da BBC Brasil, sendo, porém, este texto de minha inteira responsabilidade. Para chegar ao link da reportagem completa ponha no item ´Busca´, no portal da BBC (www.bbcbrasil.com), as palavras ´pesquisa liberdade de imprensa´.’

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