Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

VOZ DOS OUVIDORES > O POVO

Plínio Bortolotti

04/09/2007 na edição 449

‘Agora o negócio complicou de vez. Não existia um ‘complô da mídia’ para levar à condenação os acusados de se envolverem naquilo que ficou conhecido como o ‘escândalo do mensalão’? Se havia, por que cargas d´água um dos maiores jornais do país, a Folha de S. Paulo, portanto, um dos possíveis participantes do ‘complô’, de acordo com o que defendem essa tese, daria munição para seus inimigos com a manchete de primeira página ‘Supremo votou com a corda no pescoço, afirma Lewandowski’ (edição de quinta-feira)? O texto revela um diálogo particular do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Ricardo Lewandowski, em um restaurante de Brasília, que foi ouvido pela repórter Vera Magalhães.

Segundo a conversa que o ministro manteve ao telefone – de acordo com o relato da Folha –, o STF teria votado ‘acuado pela imprensa’ no julgamento que aceitou a denúncia contra os 40 indiciados no chamado ‘escândalo do mensalão’, especialmente quanto ao crime de formação de quadrilha, atribuído a José Dirceu, para quem haveria uma tendência de ‘amaciar’ a situação. Esse viés favorável do STJ em favor do ex-ministro da Casa Civil teria sido revertido depois de O Globo ter publicado uma troca de e-mails entre o próprio Lewandowski e a ministra Cármen Lúcia em que comentavam aspectos do julgamento e falavam da escolha do novo presidente do STF.

Portanto, se havia essa conspiração, como fica a Folha de S. Paulo, cujo exemplar com o relato do telefonema serviu de argumento a José Dirceu em entrevista coletiva que ele deu para se defender? Se a Folha não participava do complô, os defensores dessa tese devem desculpas ao jornal. Se participava, mas, por alguma razão, achou melhor pular fora, o que farão seus acusadores? Vão passar a tratar o jornal como ‘aliado’ ou vão pô-lo em quarentena para observar melhor o seu comportamento até dar o veredito?

A mídia carrega culpas diversas, erra muito, por vezes promove quem não merece, já massacrou inocentes e também deve ter oferecido álibi a culpados. E, reconheçamos, nos tempos que correm, uma parcela mantém inescondível má vontade com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não se contentando em relatar os erros verificáveis de seu governo, mas arrogando-se o direito de supor outros e de propor hipóteses que nunca se confirmam. Mas uma coisa é absolutamente certa: não foi a imprensa que inventou o sistema de corrupção envolvendo vários partidos e os 40 políticos, cuja denúncia, por vários crimes, o STF aceitou. Se era um ‘mensalão’ ou outro modo de se distribuir o dinheiro obtido ilicitamente, é de somenos importância: a essência é verdadeira. Se os hoje réus são culpados ou inocentes, a Justiça decidirá. São fatos.

Os meios de comunicação cometeram equívocos nesta cobertura, certamente. Mas supor conspiração e fazer acusações generalizantes é a melhor forma de evitar o debate, o que favorece os erros, intencionais e eventuais. A propósito, a mídia também acerta: se se for fazer um histórico de sua participação na história recente do Brasil, ver-se-á que – a par dos erros – a imprensa tem cumprido um papel decisivo – e positivo – em vários eventos históricos.

É também preciso dizer que, obviamente, a crítica aos meios de comunicação é livre – diferentemente de muitos jornalistas, defendo que mesmo os governantes têm o direito de fazê-la – mas existe uma barreira que não pode ser ultrapassada: pode-se e deve-se apontar todas as suas falhas, mas há de se ter claro que suprimir a liberdade de imprensa (um desses modos seria o controle estatal) é o mesmo que defender o fim da democracia. A própria diversidade dos meios (sim, eu sei que há concentração da propriedade em poucas mãos) é uma das garantias de transparência, bem exemplificado por fatos recentíssimos: a Folha de S. Paulo tinha registro da troca de correspondência entre Lewandowski e a ministra Cármen Lúcia, mas optou por não publicá-lo, o que foi feito pelo O Globo. Em contrapartida, foi a Folha a trazer à luz um novo aspecto do polêmico caso. Se houvesse monopólio de um único jornal, ou controle da informação, possivelmente uma coisa ou outra (ou as duas) deixaria de ser de conhecimento público. É assim que o jornalismo deve ser entendido: como uma instância para oferecer notícias – uma arena de debates –, de modo que as pessoas possam formar sua própria opinião, conscientemente.

Mais uma coisa. Não existe um único profissional: bancário, jornalista, juiz, jogador de futebol, cozinheiro, policial, operário, etc., que possa exercer o seu ofício livre de pressões. Cabe a cada profissão e a cada profissional desenvolver métodos para absorver as pressões, evitando que influam negativamente no trabalho a ser realizado. Um julgamento livre de toda e qualquer pressão somente seria possível enviando réus, juízes e advogados para outro planeta.

Algo para pensar. O ministro Lewandowski travou o diálogo dentro de um restaurante, falando por telefone celular, em Brasília, a terra dos grampos. Segundo o relato da repórter que registrou a conversa, ‘apesar de ocupar uma mesa na parte interna do restaurante, o ministro preferiu falar ao celular caminhando pelo jardim externo, que fica na parte de trás do estabelecimento, onde existem algumas mesas – entre elas a ocupada pela repórter da Folha, a menos de cinco metros de Lewandowski’. Na conversa, além do que já foi anotado acima, o ministro também se disse ‘independente’ (para julgar) e deu uma espécie de justificativa para o que dissera na correspondência divulgada entre ele e a ministra Cármen Lúcia. Nessas circunstâncias, não é incabível o questionamento: por que o ministro agiria dessa maneira? Falando em local público, provavelmente em tom elevado (para ser ouvido a cinco metros): ele não se importava em (ou queria) ser ouvido ou supunha que passaria despercebido, mesmo depois de ter ficado exposto, por vários dias, nas telas de TV de todo o país?’

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