Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

VOZ DOS OUVIDORES > O POVO

Plínio Bortolotti

25/09/2007 na edição 452

‘Vez por outra comento nesta coluna algum aspecto do que se passa na ‘cozinha’ da Redação, de modo a dar algum conhecimento aos leitores de como são preparadas as notícias postas à disposição do público. No comentário interno à edição de sexta-feira, fiz um elogio à Primeira Página, que opunha a fotografia da prefeita Luizianne Lins (PT) à da senadora Patrícia Saboya, acompanhadas de respectivas declarações. A prefeita: ‘Estou pronta para a guerra’; a senadora: ‘Fortaleza não precisa de guerra’; o título, encimando as declarações e as fotos: ‘Tensão pré-eleitoral’. É que Patrícia Saboya movimenta-se para sair do PSB (seu atual partido, que apóia Luizianne) como forma de viabilizar sua candidatura à Prefeitura de Fortaleza, em 2008.

Pois bem, ao começar a escrever, assomou-me a dúvida: por que o uso do termo ‘tensão pré-eleitoral’? Seria uma forma de sutilmente desqualificar o debate entre as duas, comparando com tensão pré-menstrual, a TPM, síndrome que acomete muitas mulheres deixando-as irritadiças, com dificuldade de concentração e outros sintomas físicos e emocionais? Estava pensando como abordar o assunto, quando o telefone toca; do outro lado da linha uma leitora diz que a manchete revelava ‘preconceito’ do jornal em relação às mulheres, argumentando na mesma linha de raciocínio que me assaltara. No comentário interno, mantive os elogios à edição e anotei em forma de interrogação esses questionamentos.

Dois jornalistas encararam a polêmica. Vou reproduzir na íntegra as interessantes observações do editor-adjunto de Política, Érico Firmo: ‘Participei da discussão sobre a manchete. Aliás, muita gente participou. A expressão TPE foi amplamente discutida. E havia essa dúvida. Eu concordei com seu uso. Em casa, fiquei pensando a respeito e me ocorreu que as envolvidas [a prefeita e a senadora] poderiam ficar ofendidas, de fato. Mas, ao ler seu comentário, lembrei que o termo é usado com alguma freqüência. Fiz um teste: fui ao Google e coloquei a expressão, somada ao nome do O Povo. O termo já foi utilizado, por exemplo, na disputa pela cadeira de senador, entre Inácio Arruda (PCdoB) e Eunício Oliveira (PMDB), também na polêmica entre senador Tasso Jereissati (PSDB) e Luizianne, este ano, por causa do Réveillon. Quando o universo vai além do O Povo, as referências passam de 600 no Google. Em resumo, é uma expressão já incorporada ao vocabulário político. É aqui que eu quero chegar: seria o caso de não utilizá-la por se tratar de duas mulheres? O machismo não estaria aí?’

O editor-chefe, Erick Guimarães, escreve: ‘A possibilidade da leitura, comparando TPM e TPE foi levantada na elaboração da Primeira Página, curiosamente, por um homem. Chamei várias mulheres [jornalistas] para opinar. Nenhuma delas teve essa interpretação ou viu leitura machista. Tudo junto, parece-me que a ousadia da capa é perfeitamente sustentável. Mais: é necessária para demarcamos uma situação que estava latente. O debate eleitoral, definitivamente, entrou na pauta do dia’.

Fiz questão anotar as duas respostas, pois mostram os jornalistas em plena ação, absorvidos em fazer cuidadosamente o seu trabalho. Revela, ao contrário do que muita gente pensa – e de uma certa crítica fácil e superficial à imprensa – a preocupação em oferecer a notícia corretamente: notem que o objetivo não era ‘favorecer’ ou ‘prejudicar’ um ou outro político, mas escrever um título justo. Observem que Érico Firmo defendeu a expressão utilizada, mas foi para casa preocupado com a possibilidade de ela ser desnecessariamente ofensiva; vejam que o editor-chefe resolveu consultar várias jornalistas antes de tomar uma decisão que – se quisesse – poderia tomá-la a seu talante. Essa é a forma de trabalho na Redação do O Povo.

Quanto ao mérito da questão, creio não ser necessário uma opinião conclusiva. A polêmica em si, o debate em torno do assunto torna-se mais interessante e rico de significados. Talvez a única coisa certa seja que a expressão ‘tensão pré-eleitoral’ esteja perto de virar, se já não se tornou, um lugar-comum. Como verificou Érico Firmo, somente na cobertura política do O Povo o termo já foi utilizada por diversas vezes em diferentes ocasiões. (A propósito, o editor-chefe disse que apenas um jornalista, homem, levantou a possibilidade de o título soar depreciativo; no comentário interno, lancei o questionamento a toda a Redação, mas apenas dois homens responderam. Isso poderá sugerir alguma coisa?)

Duas bolsas

Manchete da edição de quinta-feira: ‘560 mil [pessoas] deixam de ser miseráveis’. A notícia (pág. 26) explica que pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV-RJ) mostra a redução da população em situação de miséria no Ceará em 17,07% (2005-2006). Revela também que, no Brasil, no mesmo período, o número de pessoas a sair dessa condição (os que vivem com menos de R$ 125,00 por mês) foi de quase seis milhões (redução de 15%), e que o índice vem caindo consistentemente ao longo de vários anos. Segundo o coordenador da pesquisa, Marcelo Neri, a queda se explica pelo aumento real do salário mínimo, mas, principalmente, pela expansão do programa Bolsa Família. Um real gasto com o programa Bolsa Família reduz a pobreza duas vezes e meia mais do que o mesmo valor acrescido no salário mínimo, disse o pesquisador.

Até aí tudo normal. Mas, sete dias antes (edição de 13/9), manchete de página na editoria de Economia, havia garantido: ‘Programas assistenciais não reduzem a pobreza’, referindo-se, principalmente, ao Bolsa Família. Na ocasião, questionei a matéria, sustentada por um estudo do Laboratório de Estudos da Pobreza (LEP-UFC). Afirmei já ter visto várias críticas ao programa, mas nenhuma que garantisse, peremptoriamente como fez o título e o texto da matéria, que ele não tivesse efeito na redução da pobreza. Desde esse dia, peço uma resposta sobre o assunto, que até agora não obtive; portanto, não sei com qual matéria a editoria concorda e em qual delas recomendaria aos leitores confiar.’

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