Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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10/03/2009 na edição 528

IGREJA
Nelson Varón Cadena

Os pecados dos bispos

‘O bispo de Olinda Dom José Cardoso Sobrinho foi impiedoso, Deus é testemunha, ao ex-comungar a menina grávida de gêmeos no Recife, nove anos de idade , e mais os seus familiares e a equipe médica que realizou o aborto dentro da lei e seguindo os procedimentos médicos recomendáveis para este caso. Além de impiedoso Dom José cometeu dois dos sete pecados capitais : o da soberba ( ou arrogância) e o da vaidade, pois é claro que as motivações da excomunhão tem a mais ver com a sua exposição na mídia do que com o cumprimento do direito canônico. Afinal, não há registros nos anais de sua paróquia de que o bispo tenha aplicado a pena às 2.442 mulheres que o ano passado, oficialmente, realizaram o aborto nas maternidades do Recife. Dom José pode dormir tranqüilo. Os seus pecados serão perdoados, mediante confissão, após um sincero arrependimento. Quando as câmeras de TV não mais estiveram apontando o foco para Olinda, será mais fácil praticar esse ato de contrição.

Mas, a soberba não é defeito apenas do nobre arcebispo aqui mencionado e de outros bispos midiáticos, neste século da informação. E se hoje o pecado capital faz vítimas entre crianças inocentes, no passado atingia empresários, políticos e até jornalistas. Naquele tempo uma simples divergência pública com o prelado de plantão era o suficiente para que o bispo aplicasse a caneta, interpretando a seu modo (de acordo com seus humores) o direito canônico, incorrendo num outro pecado, o da vingança que é um efeito da ira. Um desses bispos de sangue inflamado foi o Cardeal Primaz do Brasil Dom Augusto Álvaro da Silva, homem muito culto, segundo seus biógrafos, mas pouco expansivo e que não admitia ser contrariado. Durante o exercício do arcebispado excomungou os jornalistas Altamirando Requião (tio avô em segundo grau do governador do Paraná) e José Augusto Berbert de Castro que se ufanava dessa sua condição e até escreveu um livro sobre o assunto: ‘Memórias de um Ex-excomungado’.

Mandou fazer penitência

A birra de Dom Augusto com Altamirando Requião, então o jornalista baiano de maior prestígio, se deu em função de um artigo assinado pelo diretor do Diário de Noticias, em 1933, onde criticava atitudes do padre Ricardo. Este, sentindo-se ofendido, foi à justiça, com o endosso do Cardeal e num outro jornal publicou um manifesto de apóio, com a sua versão dos fatos, assinado por 38 padres. Altamirando que tinha sangue quente nas veias não pensou duas vezes e abriu na justiça um processo de difamação contra o Cardeal, o padre Ricardo e mais 38 padres solidários. Vitorioso, após meses de polêmica nos dois jornais de maior circulação, ‘absolveu’ ele próprio os prelados ‘perdoando seus ofensores’ ,ao mesmo tempo recomendando ao Cardeal da Silva; ‘Reze, reze, D.Augusto, o salmo de Miserere, três vezes, de joelhos, em penitência do grande e injusto mal que quis acontecido’. A provocação resultou no ato de ex-comunhão, provavelmente revogado, já que ambos eram personagens influentes na Bahia e sabe-se que acabaram reconciliados.

Muitos anos depois desse episódio Dom Augusto ex-comungou o jornalista José Augusto Berbert de Castro, crítico de cinema do jornal A Tarde durante 40 anos, e que se dizia ateu. Ato, se não estou errado, revogado nos anos 80 pelo Cardeal Dom Avelar Brandão Vilela, irmão do Senador Teotônio Vilela. Berbert de Castro, falecido o ano passado, tinha orgulho dessa sua condição de ex-comungado, brincava com isso e chamava a atenção para o paradoxo de ser o parente de uma santa: a Irmã Dulce. Nos dois casos aqui relatados a soberba falou mais alto do que as Leis de Igreja com o agravante do prelado que extrapolou as suas funções ser a maior autoridade da igreja brasileira no seu tempo: o Cardeal Primaz. Mas, bispos a parte, padres também usavam dessa ‘prerrogativa’ para punir jornalistas. Cito aqui dois episódios que tiveram alguma repercussão, apesar do obsequioso e conveniente silêncio da imprensa que não queria bater de frente com o quinto poder.

Um deles foi a ex-comunhão do escritor e jornalista Mario Donato, celebrado como autor de ‘Presença de Anita’ , o romance adaptado para a TV por Manoel Carlos exibido pela Globo há alguns anos, no formato de mini-série. O livro, tido pela igreja como indecente, motivou a sua ex-comunhão em 1948. Já na década de 50 a vitima da ira da igreja foi o jornalista gaúcho João Baptista Marçal, pesquisador da imprensa operária do Rio Grande do Sul, então um jovem de idéias de vanguarda que divulgava pelo rádio , segundo o padre que o puniu, mentor de uma greve no seu município. Foi o bastante para que o padre de Quaraí o ex-comunga-se durante o sermão da missa dominical, na presença dos fiéis para marcar posição. O fato é que padres e bispos por razões políticas, orgulho, soberba, aplicaram a maior das punições previstas no código canônico, nos episódios aqui relatados. Até o cantor Odair José, 1978, foi alvo desse julgamento sumário eclesiástico, ex-comungado por gravar e divulgar o disco ‘O filho de José e Maria’. Cá entre nós, que ninguém nos ouça, desta vez a igreja agiu certo. O disco era ruinzinho mesmo.’

 

 

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