Domingo, 15 de Dezembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1067
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ENTRE ASPAS >

Publicar ou não publicar, eis a questão

11/08/2009 na edição 550

Há 10 dias, o New York Times publicou um furo esportivo ao revelar que Manny Ramirez e David Ortiz, jogadores de beisebol que ajudaram o Boston Red Sox a ganhar dois campeonatos mundiais, tiveram resultado positivo no exame de doping de 2003. O nome dos dois estaria em uma lista que permanece em sigilo. Henry Aaron, astro do beisebol americano, pediu na semana passada que a lista inteira fosse divulgada para ‘que isto fosse superado e o beisebol pudesse seguir adiante’.

Fãs furiosos alegam que o pinga-pinga de nomes tira a atenção dos jogos. ‘Quando falo de beisebol, não é mais algo divertido e relaxante. Deem a lista inteira ou parem com isso’, pediu o leitor Douglas Scheier. O ombudsman Clark Hoyt afirma, em sua coluna de domingo [9/8/09], que entende o desejo dos leitores, mas uma das obrigações fundamentais de um jornal é examinar a integridade das instituições, incluindo o beisebol. Se a lista do doping não é divulgada na íntegra, é por ser de difícil acesso. Tom Jolly, editor de esportes, disse que ninguém está vazando a lista dos que usaram substâncias ilegais secretamente. Para se ter acesso a cada nome, só com muita investigação.

Ilegal ou imoral?

Os mais críticos acusam o NYTimes de agir ilegalmente – ou de esquecer a ética – ao procurar agressivamente os nomes que um juiz mantém em segredo enquanto a justiça decide se agentes governamentais têm o direito de ter acesso aos resultados dos testes para investigação própria. Donald Fehr, procurador e diretor-executivo da Associação dos Jogadores Profissionais da Liga Americana de Beisbebol, declarou que o diário violou a lei. ‘O vazamento de informação sob segredo da corte é crime’, afirmou. Para Fehr, se o NYTimes queria os nomes, deveria ter ido ao tribunal e pedido ao juiz para suspender a ordem.

Michael Schmidt, repórter que assinou a matéria e que já havia divulgado que Sammy Sosa também tinha obtido resultado positivo nos testes, acredita que não fez nada de errado. ‘Acredito ser legal e ético perguntar às pessoas que podem estar cobertas por ordem da corte’, defendeu-se. ‘É uma escolha da fonte falar’. Segundo o repórter, quase 200 pessoas sabem quem está na lista – algumas não estão cobertas pela ordem do juiz – e ele falou com muitas delas. Muitos defensores da Primeira Emenda consultados pelo ombudsman deram razão a Schmidt e não a Fehr. ‘Não é ilegal buscar informação, seja ela protegida pela corte ou secreta. É inapropriado para uma fonte fornecê-la’, pondera Floyd Abrams, que representou o diário nos casos dos papéis do Pentágono em 1971, uma coletânea de textos secretos sobre a participação americana na Guerra do Vietnã.

O que o repórter decide fazer com a informação obtida é a parte complicada da história. ‘É papel do jornal conseguir a informação e, se for interessante, publicá-la’, defende o editor-executivo Bill Keller.

David McCraw, advogado do NYTimes que orientou Schmidt, acredita que ordens de confidencialidade em geral são emitidas de acordo com interesses de algumas partes, sem consideração com o público. Por conta de ordem semelhante, o público não ficou sabendo por anos que pneus da Firestone nos carros Ford Explorer foram responsáveis por acidentes que envolveram a morte de mais de 270 pessoas. Na opinião de Hoyt, beisebol pode não ser assunto de segurança nacional, mas é parte importante da cultura americana e as informações são de interesse público.

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