Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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ENTRE ASPAS >

Relações não reveladas e conflito de interesses

14/04/2009 na edição 533

No final do mês passado, o New York Times publicou uma coluna de opinião sobre o escândalo fraudulento de Bernard Madoff, ex-presidente da Bolsa Nasdaq. Madoff operava um esquema conhecido como Ponzi, que seria uma pirâmide financeira na qual se prometem retornos muito altos a investidores iniciais, que são remunerados com o dinheiro de quem adere ao esquema posteriormente.

Daphne Merkin, que é colaboradora freqüente da revista de domingo do diário e escreve há anos sobre negócios e investimentos, argumentou em uma coluna que ninguém foi forçado a se associar a Madoff, que as pessoas o procuraram ansiosamente para investir com ele e, portanto, não deveriam ser chamadas de ‘vítimas’ pela imprensa. ‘Não conheci Madoff, nem investi em sua empresa, mas tenho um irmão que fez negócios com ele’, escreveu. Ela não citou o nome de seu irmão, mas seria J. Ezra Merkin, investidor conhecido que colocou mais de US$ 2 bilhões de clientes no esquema de Madoff, coletando mais de US$ 470 milhões em taxas, segundo o procurador-geral de Nova York, Andrew Cuomo, que o acusou de fraude e o processou na semana passada.

Segundo Cuomo, Merkin enganou seus clientes por ‘alegar falsamente que gerenciava seus fundos ativamente’, quando na realidade entregava o dinheiro a Madoff, sem qualquer precaução extra. Em alguns casos, Merkin mentiu quando seus clientes perguntaram se os fundos estavam investidos com Madoff. O advogado de Merkin afirmou, entretanto, que a ação ‘não tinha mérito’. Para Cuomo, ‘Merkin lucrou enormemente com o esquema Madoff, obtendo altas comissões enquanto investidores perdiam dinheiro’.

Conflito de interesses

O caso levantou a velha questão sobre o quanto um jornal deve revelar a seus leitores para que eles saibam das ligações e possíveis motivações de um colunista. Para Hoyt, muito mais do que é freqüentemente revelado. Neste caso, Ezra Merkin é uma figura central no escândalo sobre o qual sua irmã escreveu. Antes de Daphne ter escrito a coluna, Ezra havia deixado a presidência do banco GMAC, que faz parte da General Motors, e estava sendo processado pela Universidade de Nova York e outras instituições que sofreram após terem entregue seu dinheiro a Madoff.

Os leitores que ligaram os pontos reclamaram que o New York Times deu a Daphne uma plataforma para fazer uma defesa velada da conduta do irmão, sem deixar claro seu grau de envolvimento no caso. ‘Sua coluna tenta colocar alguma culpa nos investidores, mas as pessoas que investiram com seu irmão não sabiam de nada sobre Madoff. Daphne é uma boa colunista, mas os leitores considerariam suas idéias de maneira mais analítica se soubessem quem seu irmão é, na verdade, e o que ele realmente fez’, afirmou a leitora Jane Isay. Outros, como Lynn Bienstock, acharam que o diário não deveria ter publicado o artigo.

Na opinião de Hoyt, as páginas editoriais devem ser, sim, um fórum para todos os pontos de vista, desde que os leitores tenham informações suficientes para entender as motivações do colunista. David Shipley, editor das páginas editoriais, defendeu a coluna de Daphne e a quantidade de informação disponibilizada por ela. Ele disse que a pauta não partiu da colunista; na realidade, foi o jornal que pediu que ela escrevesse sobre Madoff. ‘Ela escreve sobre o tema há muito tempo. Por isso, a procuramos, mas também por conta de sua relação com o irmão, pois isto poderia lhe dar pontos de vista interessantes sobre o que aconteceu’, comenta. Daphne, no entanto, ficou cautelosa. ‘Eu pensei muito antes de aceitar a pauta, por causa do envolvimento de meu irmão. No fim, decidi que tinha algo de grande interesse para dizer’, afirma. ‘O que eu sabia é que meu irmão não seria de jeito nenhum o assunto da coluna e que ela não seria em sua defesa ou em seu ataque’.

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