Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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VOZ DOS OUVIDORES >

Suzana Singer

17/08/2010 na edição 603

‘NA TERÇA-FEIRA passada, a Folha foi acusada na própria Folha de ter publicado uma reportagem que atenta contra os direitos de crianças e adolescentes. O alvo da crítica era o texto ‘Vida em looping’, que descrevia a saga de L., a garota presa durante semanas em uma cela com 26 homens, em 2007, no Pará.

Nos três últimos anos, L. tentou viver com a família, mas não deu certo, passou por vários Estados, ficou viciada em crack, prostituiu-se para conseguir a droga, foi internada para tratamento, fugiu, furtou, foi presa e internada, de novo, à força. Durante todo esse período, esteve sob as asas do Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte, da Secretaria de Direitos Humanos do governo federal.

A repórter refez os passos de L. falando com pessoas que a atenderam, delegados, amigas e traficantes. Foi um furo. Vários jornalistas tentam levantar a história dessa garota, que virou símbolo dos descalabros do sistema prisional brasileiro.

As críticas à reportagem partiram de Carmen Silveira de Oliveira, secretária Nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, que publicou artigo na seção ‘Tendências/Debates’, e de organizações não governamentais.

Para a secretária, a reportagem peca por descrever L. como uma viciada irrecuperável que se prostituía ‘como uma ratazana’. O texto, ‘preconceituoso e estigmatizante’, teria transformado a garota em ‘algoz do seu próprio destino, desqualificando sua posição de vítima’.

Não foi a repórter que comparou L. a uma ratazana, foi a traficante que toma conta de uma ‘boca’ que a menina frequentava (‘Aquela ratazana era maior do que as outras’). O texto não emite juízo de valor, só descreve os percalços da ex-detenta. E reside aí o seu maior erro.

A reportagem se limita a contar a vida de um ‘personagem’ do noticiário, sem abrir o leque. O texto deveria ter mostrado por que os programas do governo falharam, como deixaram uma adolescente, sob proteção do Estado, ir parar numa cracolândia nos arredores de Brasília.

Como diz a própria secretária, a reportagem tirou ‘o foco da imperiosa necessidade de responsabilização dos agentes públicos e demais envolvidos’. Pródiga em críticas à repórter, Carmen emudece a respeito da responsabilidade do órgão que dirige. Se L. é vítima, quem são os culpados pela sua situação?

A Folha foi acusada ainda de dar pistas que ajudariam a localizar a garota, ameaçada de morte. A repórter afirma que, antes da publicação do texto, certificou-se de que L. seria transferida para outro Estado.

Se não tivesse fechado tanto o foco, a Folha teria mais legitimidade para falar do caso. A reportagem não seria mais ‘a triste história de L., drogada e prostituída’, mas um exemplo de como os agentes públicos não sabem lidar com crianças e adolescentes em situações de risco.

***

Para onde vai o dinheiro?

A Folha entrou no fogo cruzado contra o BNDES. Manchetou, no domingo passado, que o banco repassa 57% dos recursos a 12 empresas. A reportagem dizia que mais da metade do crédito concedido pelo banco estatal foi destinada à Petrobras, à Eletrobras e a mais dez grupos privados, entre os quais, três empreiteiras.

O último parágrafo de um texto de apoio explicava que o levantamento se refere a dois terços dos recursos -não inclui crédito para exportação nem empréstimos feitos por meio de bancos intermediários, porque esses dados não estão detalhados na internet. Mas são justamente essas operações, em valores menores, que vão para empresas pequenas e médias.

A cifra obtida pela Folha gerou artigos em outros jornais, editorial e foi citada no Senado. Na quarta-feira, o BNDES convocou coletiva para divulgar o número que considera correto: 28,7% do dinheiro foi para dez empresas.

Não é pouca concentração, mas é diferente do que foi publicado. No dia seguinte, a Folha afirmou que o banco ‘tentava desfazer a impressão’ de que centraliza recursos. Editorializou o que não precisava. Além disso, não deveria ter dado em manchete um número que sabia ser parcial. Mas o levantamento da reportagem teve o mérito de forçar um banco público a prestar contas.’

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