Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Suzana Singer

05/10/2010 na edição 610

‘Na última semana de campanha eleitoral, a Folha viveu o céu e o inferno do jornalismo.

Primeiro, as más notícias. Na sexta-feira, dia 24, o site do jornal, no afã de informar primeiro, cometeu um grande erro. Às 19h29, colocou na home (página inicial) que o senador Romeu Tuma tinha morrido.

Circulava no meio político que a sua saúde havia piorado. Procurado pela Folha, um médico, que não atende o candidato, disse que ele estava morto. Era só uma fonte, em ‘off’, que não era da família nem da direção do hospital. Apenas com isso, o site anunciou a morte de Tuma, que virou manchete do UOL.

Rapidamente, chegaram desmentidos e, três minutos depois, a notícia saiu da home, mas ficou no site até as 19h55. A correção só apareceu às 21h18, quase duas horas depois que a notícia errada tinha sido veiculada.

Foi um grave erro de apuração, de edição e de falta de agilidade na hora de corrigir. Foram 38 mil cliques na falsa morte, que vazou para o Twitter e o Facebook.

A internet é rápida e fácil de fazer. Para dar um furo, basta a informação: em instantes, ela é divulgada, sem necessidade de produzir imagens (TV) ou de imprimir algo (jornais). É aí que mora o perigo.

Depois da ‘barriga’ -notícia falsa, terror de todo repórter-, a Folha conseguiu dar um belo ‘furo’ -na definição do colunista Xico Sá, aquela notícia exclusiva que dá inveja nos outros jornalistas.

O jornal informou, na quinta-feira, que José Serra ligou para Gilmar Mendes no dia em que o Supremo Tribunal Federal decidiria sobre a documentação necessária para votar. Em seguida, o ministro pediu vista, interrompendo o julgamento.

A Folha obteve esse furo sem recorrer a denúncias anônimas ou grampos telefônicos. Só observou.

Depois de assistir a um encontro de Serra com servidores em São Paulo, a imprensa saiu do recinto para ‘se posicionar’ -pegar um bom lugar- na entrevista que ele daria do lado de fora.

Insatisfeito com as fotos que tinha feito, Moacyr Lopes Jr., 42, ficou no auditório e viu Serra pedir uma ligação para Gilmar Mendes. O candidato começou a caminhar enquanto falava ao celular. Moacyr fotografava e ouviu Serra saudar o interlocutor com um ‘meu presidente’.

Na volta para o jornal, contou o que viu à repórter Catia Seabra, que completou a apuração.

Moacyr não se escondeu. Como acontece com muita gente, inclusive com jornalistas, Serra esqueceu que quem faz as imagens não é chamado de ‘repórter-fotográfico’ à toa.

O furo do telefonema Serra-Gilmar Mendes engrossou uma série de reportagens publicadas nesta semana mais críticas ao PSDB.

O jornal relatou os questionamentos do TCU às contas do governo Serra, levantou números desfavoráveis de educação na gestão Alckmin e noticiou que Beto Richa, do Paraná, conseguiu censurar a divulgação de pesquisas.

Ontem, levou para a manchete um caso localizado, ocorrido em Roraima: a apreensão de dinheiro perto do escritório do senador Romero Jucá. O título ‘Aliado de líder do governo joga pela janela R$ 100 mil’ poderia ter sido ‘Aliado da coligação PMDB-PSDB joga R$ 100 mil pela janela’ . Fazer jornalismo equilibrado é um desafio constante.

***

Não pode filmar nem questionar

Depois de assistir ao quinto debate eleitoral, o que se conclui é que os presidenciáveis não prezam o exercício do jornalismo.

Em nenhum desses encontros, o jornalista pode perguntar e, caso ficasse insatisfeito com as respostas, voltar ao tema.

O resultado é o que se viu: candidatos engessados por orientações de marqueteiros, abordando temas testados em pesquisas qualitativas, sem espontaneidade.

As imposições chegam ao ponto de proibir que os candidatos sejam filmados quando não estão falando. Evita-se, assim, que sejam flagrados distraídos, em situações constrangedoras.

Em 2002, permitia-se, pelo menos, que ao final da resposta/ réplica/ tréplica, o jornalista fizesse uma pergunta. Sobre as cotas em universidades, por exemplo, William Bonner questionou Lula se ele ‘considerava simples definir quem era negro e quem não era’ nesse sistema.

Sem essa possibilidade de pergunta complementar neste ano, a Globo preferiu deixar Bonner apenas como mediador para não dar a falsa impressão de que o jornalista engoliu uma resposta evasiva passivamente.

Que em 2014 -ou num segundo turno- a imprensa se una e faça os candidatos mostrarem respeito à liberdade de questionar.’

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