Domingo, 16 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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VOZ DOS OUVIDORES >

Suzana Singer

09/11/2010 na edição 615

‘Em uma palestra na Califórnia, há muitos anos, o editor-chefe da ‘Men’s Health’ defendeu ser possível fazer jornalismo de serviço sobre praticamente qualquer coisa.

Uma das reportagens mais populares da revista era sobre a quantidade exata de leite no cereal, de modo que não ficasse ‘encharcado’ nem seco demais. O segredo, dizia com razão, era se colocar no lugar do leitor, descobrir que tipo de informação lhe pode ser útil no dia a dia.

No Brasil, o jornalismo de serviço tem uma tradição maior no rádio e em revistas, mas ganhou espaço nos jornais -o Guia da Folha é o suplemento que mais provoca aumento de vendas em banca.

Mesmo assim, nas Redações, esse tipo de trabalho ainda é visto como de segunda classe, inferior às coberturas políticas, internacionais ou à crítica cultural. Talvez por isso o jornalismo de serviço seja tantas vezes maltratado, inclusive na Folha.

Dois exemplos recentes ajudam a entender o pouco-caso com o leitor.

Mexer com hábitos

No último dia 19, um pequeno texto, com título enganoso (‘Folha.com. vai publicar todas as cotações’), avisava que, por causa do horário de verão, a Folha não publicará até fevereiro boa parte dos Indicadores Econômicos (cotações de ações, taxas de câmbio, produtos agropecuários etc). Os interessados podem consultá-los na internet.

‘E os velhos, que ainda têm dificuldade com computador?’, protestou o corretor Haroldo Pinto da Silva Filho, de apenas 58 anos. Ele tem uma ‘carteirinha de ações’ e sempre ‘dava uma olhada nos indicadores’. ‘Agora minha planilha Excel está em branco’, diz.

Deixar de publicar os preços do boi gordo afetou contratos do governo e de prefeituras do Estado de São Paulo. ‘O preço da carne era atrelado ao valor no dia da entrega. Sem os índices, os fornecedores ficaram dez dias sem aumento. Não dava para usar outras fontes porque o contrato falava expressamente da Folha’, explica Lísias Fernandes dos Reis, gerente de licitações da BB Distribuidora de Carnes Ltda. Após a reclamação de Lísias, o jornal voltou com o boi gordo.

As explicações publicadas pelo jornal não convenceram. Em todo ano há horário de verão e os indicadores sempre saíram. A diferença é que agora Mercado é finalizado mais cedo, às 19h, duas horas antes da Primeira Página na edição nacional -uma mudança que prejudica todo o noticiário econômico. Como a Bovespa fecha às 18h no verão para acompanhar Nova York, não há tempo de incluir os dados.

O jornal poderia, no entanto, colocar a tabela em outro caderno, ‘medida que está sendo estudada’, segundo a Secretaria de Redação. Da maneira abrupta e pouco transparente como a página foi suspensa, ficou, entre os leitores, a impressão de uma ‘decisão preguiçosa’.

Não testar nem questionar

Uma parte do jornalismo de serviço consiste em indicar restaurantes, lojas, filmes, viagens, enfim, produtos, o que o aproxima perigosamente do trabalho das assessorias de imprensa. Para fazer esse tipo de reportagem com critério, é necessário pesquisar, evitar o óbvio e testar o que se está ‘oferecendo’ ao leitor.

O caderno Tec não fez nada disso, no último dia 27, quando falou sobre leilões virtuais. ‘Usuários arrematam iPad e iPhone com preço 90% menor’ era o título da reportagem, que trazia apenas quatro depoimentos: dois usuários felizes e dois donos (felizes) de sites. A primeira linha era um primor: ‘Comprar um iPhone 4 a R$ 133 ou um iPad a R$ 134 parece piada’.

A reportagem não dizia que a pessoa paga R$ 1 a cada lance. Não explicava também a mágica do lucro desses sites. Os internautas que comentaram o texto na Folha.com. levantaram exemplos, observaram quantos lances ocorriam a cada venda, se os participantes se repetiam, enfim, desconfiaram.

Fizeram o que o repórter se esqueceu de fazer. ‘Permitir uma reportagem dessas é, no mínimo, negligência’, postou um internauta.

É provável que boa parte do jornalismo de serviço migre para a internet. Roteiros culturais, programação de TV, previsão do tempo, tabelas de preços de carros são informações que ocupam muito papel, cada vez mais caro, e podem ser expandidas à vontade na web.

Enquanto esse movimento não ocorre, o jornal precisa zelar pela qualidade das reportagens que mexem com o tempo e o bolso do leitor.’

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