Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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VOZ DOS OUVIDORES >

Tânia Alves

Por Carlos Castilho em 03/11/2015 na edição 875

Para publicar seu noticiário, o Grupo de Comunicação O POVO faz uso de conteúdo distribuído por agências de notícias. Uma prática muito comum em grande parte da imprensa. Utiliza o mecanismo nas diversas plataformas do grupo – impresso, rádio e online. Embora estas notícias não sejam apuradas por uma equipe local, o meio que as publica também tem responsabilidade sobre elas. Abordo este tema por causa da reação de muitos leitores que criticaram, nas redes sociais, a publicação do texto “Lula responsabiliza Dilma por busca na empresa do seu filho”, postado na terça-feira passada (27/10) no O POVO Online, e reproduzido pelo Facebook, Twitter e Instagram do O POVO.

Nos comentários deixados no Facebook do jornal, pelo menos 15 leitores criticaram o fato de O POVO Online publicar uma notícia que não tinha fonte. Muitos deles lembraram que o Instituto Lula, que representa o ex-presidente, já havia negado a informação. “Desinformação”, “apelação”, “sem mencionar fontes” e “fontes não aparecem” foram algumas das opiniões postadas pelos leitores cobrando maior rigor na publicação de notícias.

De fato, o conteúdo publicado originalmente pelo O Estado de S. Paulo e reproduzido pelo O POVO Online cita como fonte três amigos do ex-presidente Lula. O nome deles, porém, não é apresentado no texto. No último parágrafo, a matéria destaca que o Instituto Lula, em nota, havia informado que a notícia não tinha “fundamento”. O POVO Online não apurou as informações, não sabe quem são as fontes do Estadão e reproduziu o texto como uma verdade absoluta, embora existisse uma negação formal do ex-presidente. Em uma rápida pesquisa na internet, verifiquei que, em nenhuma das matérias disponíveis sobre o assunto, aparecem fontes abertas. Todas são anônimas: os amigos do presidente ou interlocutores dele. O conteúdo, no entanto, correu o País.

Questionei formalmente a redação sobre a publicação do conteúdo a editora-executiva do O POVO Online, Juliana Matos Brito, assim respondeu: “O POVO trabalha com agências de notícia, que geram conteúdo jornalístico nacional e internacional, com elevado padrão de apuração e reconhecido histórico de credibilidade. Confiamos no serviço prestado e que publicamos. Até o presente momento não temos registro de erros na condução deste material. Avaliamos estes conteúdos periodicamente. Podemos encerrar o contrato caso avaliemos que as agências não mantenham o mesmo padrão que trabalham nossos jornalistas.”

RISCO DE FOFOCA

Não se trata aqui de questionar a credibilidade de agência, mesmo porque ela sabe quem deu a informação. O POVO Online, não. O jornalismo vive e precisa de fontes. Sem elas não existe noticiário. A legislação permite ao jornalista protegê-las, mas usar o anonimato para reproduzir notícias deve ser a exceção, e não a regra. É um mecanismo para ser utilizado em conteúdos pelo bem do interesse social. Falar da irritação de um ex-presidente tem pouca relevância para exigir anonimato das fontes. É preciso parcimônia, bom senso e apuração rigorosa para decidir quando publicar um conteúdo com fonte sigilosa. Caso contrário, corre o risco de descambar para fofoca e deixar de ser jornalismo.

TÍTULOS DIFERENTES

Na última quarta-feira (28/10), O POVO publicou uma manchete que apresentava divergência com o conteúdo publicado na matéria e que poderia causar confusão na cabeça do leitor. Enquanto o título na capa do jornal informava “Ladrões levam 38 carros por dia no Ceará”, a página interna destacava: “Por dia, mais de 38 veículos são roubados ou furtados no Ceará”. Ao ler o texto, o consumidor da informação ficava sabendo que esta quantidade incluía carros, motos e caminhões.

As estatísticas da Assessoria de Análise Estatística e Criminal da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (AAESC/SSPDS), que serviram de base para o conteúdo, são feitas com base em veículos, e não especifica os dados separadamente. Chamei atenção no comentário interno. Não recebi qualquer resposta oficial. Enviei um pedido foram como explicação. A diretoria da Redação não respondeu.

CONVERGÊNCIA COM O TEXTO

Os títulos em jornalismo precisam chamar atenção do consumidor de informação para que ele chegue até o fim da notícia, num mundo de infinidades de outras coisas também atraentes. Mas eles não devem fugir da convergência com o conteúdo que lhe deu origem. O dado de que 38 carros são levados por dia no Ceará não estava no texto. A notícia deixava claro que os números se referiam a três tipos de veículos (carros, motos e caminhões) juntos. Faltou uma manchete mais condizente com os dados apresentados nas estatísticas. E isto pode embaralhar o entendimento do leitor.

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