Quinta-feira, 25 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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VOZ DOS OUVIDORES >

Tânia Alves

Por Carlos Castilho em 07/03/2016 na edição 893

Na quinta-feira passada, vi a proposta de delação do senador Delcídio do Amaral (PT/MS), no início da manhã, se espalhar por portais de notícia do Brasil tendo como fonte a matéria da revista IstoÉ. Ninguém ainda, naquela hora, tinha apurado nada, exceto a revista semanal, que havia chegado às bancas mais cedo. Entre fatos e versões, a proposta de delação virou verdade em todo canto. O dia foi longo e, entre não confirmação e confirmação pela metade, foi a notícia do dia seguinte no impresso.

Só que ela já amanheceu velha nas capas dos jornais da sexta-feira. A Polícia Federal estava na casa do ex-presidente Lula deflagrando a 24ª fase da Operação Lava Jato. Com eles, a imprensa chegou junto. Os fatos estavam ali. As redes sociais entraram em ebulição. Radicalismo contra e a favor da operação. O que será dito daqui a 10 anos dos acontecimentos que a gente vive por estes dias? Como o jornalismo se comportou? Como transmitiu fatos, versões e suposições? Quais excessos a gente cometeu? O que de verdade a imprensa deixará sobre esta data? Onde haverá erro e acerto?
É difícil analisar agora, no calor dos acontecimentos. É preciso manter a serenidade nas notícias, nos comentários deixados nos rodapés das matérias, nas redes sociais. Cada um fala hoje a partir de suas convicções, de suas preferências. E fica mouco para escutar o outro. O jornalista não pode fazer assim. O repórter precisa ir para o mundo, conhecer o outro e noticiar fatos. Acredito que as coisas se dão como têm de acontecer, mas cada um terá de responder por aquilo que fez ou deixou de fazer. Ao jornalismo cabe fazer o debate, sem, no entanto, jogar mais lenha na fogueira

A escolha da palavra certa

Dois leitores entraram em contato com a ouvidoria na terça-feira passada (1º/3) incomodados com a condução de duas matérias distintas. Uma delas publicada na edição impressa daquele dia e a outra, na versão online do O POVO no dia anterior. Ambas na editoria de Economia. O primeiro considerou que a matéria “Governo vai endividar-se em R$ 3 bilhões” tinha viés pró-governo. Ele criticava o texto. “A repórter diz que a Sefaz (Secretaria da Fazenda do Estado) manteve o controle de gastos em 2015, obtendo êxito em relação a outros estados da federação, que nem conseguem pagar seu funcionalismo. Diz ainda que, a duras penas, o Ceará conseguiu cortar R$ 400 milhões, quando se sabe que essa economia é pífia”. Depois, apontou que o foco da matéria deveria ser o endividamento em dólar do Estado.

O outro usuário de notícia enviou e-mail sobre a matéria “Rabelo espera até 100 mil pessoas no primeiro dia do Supersaldão”. Ele questionava se a matéria seria informe publicitário. “Matérias pagas devem ser diferenciadas das matérias redacionais. Lembro que se utilizava tipo e corpo diferente da letra, uma cercadura e um aviso de ‘informe publicitário’”, disse.

No primeiro caso, considero que o leitor acerta quando afirma que o viés do texto deveria ser o endividamento. O título até aborda o tema, mas o texto só o desenvolve a partir do fim do segundo parágrafo. O conteúdo que chama o título só estava no terceiro parágrafo. Algumas palavras poderiam ser evitadas no texto como duros cortes, que está no resumo da matéria ou duras penas. Sem explicar, elas sobram. Sobre esta questão, a editora-adjunta do Núcleo de Negócios, Nathalia Bernardo, destacou o seguinte: ”O enfoque do texto é, justamente, o endividamento do Estado. Assunto que tem sido recorrente em nossas páginas’’

Quanto ao segundo caso, o leitor tem razão quando comenta que a matéria é de interesse da loja citada. Só que ela tem também um nicho de interesse público. É só verificar o quanto de gente fica na porta do comércio nestes dias. Atinge um público específico, sim. Assim como um conteúdo sobre uma greve de uma categoria atinge um segmento. Porém, o texto usava expressões (“grande negociações”, “diferencial para os clientes”) que potencializavam o exagero e geraram dúvidas. Na versão publicada no impresso, no dia seguinte, o conteúdo está mais sóbrio. Sobre este tema, a editora respondeu: “Supersaldão Rabelo costuma ter grande alcance, movimento que já vimos em anos anteriores. Como a própria matéria diz, são esperadas 100 mil pessoas em um dia, número que justifica nossa opção”

Um detalhe é necessário que se diga para os dois casos: escolher palavras certas é essencial para a precisão do texto jornalístico. Considero que neles a utilização de expressões empolgadas deu origem à análise dos leitores.

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