Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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VOZ DOS OUVIDORES >

Tânia Alves

Por Carlos Castilho em 24/05/2016 na edição 904

Uma matéria publicada no domingo passado, no Vida & Arte.dom, desencadeou uma série de comentários de leitores que mostravam descontentamento com o conteúdo. O incômodo surgiu pelo desenho da página aliado ao título. A matéria “Os mil sentidos do comer” apresentava o tema culinária afrodisíaca associado ao desenho de um corpo de mulher formado por utensílios usados no cozinhar. A forte reação veio tanto por meio de observações enviadas para a ouvidoria como nas redes sociais, unindo homens e mulheres nas críticas. Também foi motivo de observações internas feitos por um integrante do Conselho de Leitores do O POVO. Ele se disse constrangido. “Em 2016 centrar o foco na relação entre o “comer” e corpo feminino é um lugar machista”

Ressaltando um misto de tristeza e indignação, um leitor enviou por email: “Em tempos em que as mulheres brasileiras são vítimas de reiterados ataques às liberdades e direitos que tão duramente foram conquistados, um jornal da envergadura de O POVO veicular em destaque uma associação direta entre o verbo comer e o corpo feminino é, num mínimo, uma escolha infeliz”.

O embaraço dele se tornou mais latente a partir da contradição entre a manchete do O POVO daquele dia, que tratava do assédio sexual : “A coisa se torna ainda mais grave pelo fato de a matéria mais importante do jornal deste dia, com uma grande manchete de capa, seja sobre a violência do assédio sexual sofrido pelas mulheres na noite de Fortaleza”.

Com o mesmo ponto de vista de elogio à manchete do O POVO, na edição de domingo, uma leitora enviou mensagem destacando que a matéria da culinária afrodisíaca foi fruto de “machismo internalizado e entranhado ao ponto de que algumas vezes se confunda erotismo com objetificação”. Outro usuário, por sua vez, telefonou para classificar a página como um “arranjo de sexismo e machismo”. Ele ressaltou que, no sentido da estética, a página estava muito bem desenhada, mas do ponto de vista da leitura ela é “a mais sexista possível”. Nas redes sociais, onde os nervos estão sempre à flor da pele, os comentários giraram em torno de “gafe”, “ridículo”, “falta de conhecimento”, “tosco”,“machista” e “terrível”.

Os leitores têm razão ao criticar o resultado final da página. Ao utilizar o verbo comer, que por aqui não significa somente matar a fome, agregado à imagem do corpo de mulher – que, por sinal, está muito bonita – se deu motivo para as críticas. O impacto negativo foi tanto que quase ninguém atentou para o desenho da página seguinte da matéria, onde uma discreta ilustração fazia alusão ao masculino com uma imagem que lembrava o falo. Foi um resultado inconveniente.

PROBLEMA DE EXECUÇÃO

Citei os editores de Cultura e Entretenimento, que inclui o Vida&Arte, e do Núcleo de Imagem para que se pronunciassem sobre a edição do conteúdo. A editora-chefe de Cultura e Entretenimento, Cinthia Medeiros, enviou a seguinte resposta: “Um jornal que trouxe, naquela mesma edição, uma manchete que denunciava o assédio sofrido por mulheres na noite de Fortaleza, não merece ser tachado de machista. Quem o acompanha, numa trajetória de 88 anos, sabe da atenção cotidiana do O POVO às grandes discussões da sociedade, apresentando, muitas vezes, um posicionamento de vanguarda. Reconhecemos, no entanto, que no último domingo houve uma conjunção de fatores que resultaram em problemas na execução da página em que publicamos a matéria sobre gastronomia afrodisíaca. Num processo feito a várias mãos, faltou um olhar geral que indicasse que aquela combinação entre título e recurso gráfico poderia gerar leituras diferentes da que gostaríamos de passar”.

Cinthia Medeiros também destacou que algumas lições foram tiradas do episódio. “Continuaremos sempre atentos às críticas, para usá-las, quando necessário, como ferramentas de reflexão e aprimoramento do nosso trabalho”.

OUSADIA X RETROCESSO

A editora tem razão quando diz que O POVO não deveria ser tachado de machista. O jornal, na maioria das vezes, tem se mostrado atento ao seu tempo e ajudado a descortinar temas considerados tabus. No entanto, a edição, com dois conteúdos tão díspares, resultou em uma contradição perfeita, potencializando-a. Se, por um lado, os leitores encontraram a ousadia de levar para a manchete um conteúdo que está no centro do debate na atualidade, por outro, retroagiu ao não perceber que em 2016 já não dá mais para fazer associação entre aquele verbo e o corpo feminino.

Vale aqui lembrar o que disse um leitor sobre o texto da matéria ao fazer críticas à página: “Ele é analítico e não é apelativo”. Porém, o resultado final foi um equívoco. Lembrou discursos ultrapassados feitos pela ótica machista. Mesmo que a ideia inicial não tenha sido esta, foi assim que os leitores enxergaram.

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