Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

VOZ DOS OUVIDORES > UOL

Tereza Rangel

17/07/2007 na edição 442

‘O interesse do público de Internet por notícias de celebridades é enorme. Tanto que os principais portais, UOL incluído , têm estações dedicadas às notícias e fofocas dos famosos. Há quem compare a Internet, do ponto de vista de informação, a uma grande banca de jornais e revistas, em que o público escolhe o assunto que quer ler. Até aí, tudo bem. A ‘banca’, porém, tem poder de deixar alguns conteúdos mais visíveis, mais ‘vendáveis’. Ao fazer isso, deve fazê-lo com cuidado.

*

Hoje, o apresentador Silvio Santos envolveu-se num acidente banal de trânsito, na Marginal do Pinheiros, em São Paulo. Não houve danos físicos nem materiais, diz a reportagem destacada pelo UOL. O texto tem quatro parágrafos e poucas informações além de que Silvio Santos dirigia sozinho seu carro, houve colisão com caminhão na Marginal Pinheiros, em São Paulo, ninguém se machucou, os carros ‘praticamente não foram danificados’ e Silvio Santos foi para casa. Não diz quem bateu em quem, quem era o motorista, em que carro estava o apresentador.

Ao colocar como o principal destaque da área de televisão, ainda mais com um ponto de exclamação após a palavra susto, o UOL cria a expectativa de alguma gravidade.

Pergunta: vale gastar o espaço nobre da principal página do portal para destacar uma ‘não-notícia’ só porque envolve um megafamoso?

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Começa o Pan (12/07/2007)

Apesar de a festa de abertura ser amanhã, hoje começaram os Jogos Pan-Americanos, com o futebol feminino. Diferentemente da concorrência, que criou selos em suas páginas principais para o evento, a home page do UOL quase escondeu o início do evento esportivo, no jogo entre Argentina e Panamá. Veja na imagem abaixo a chamada, discreta, no bloco de Esportes, na hora da estréia dos jogos.

Quando a seleção feminina de futebol brasileiro entrou em campo, a home page usou a foto principal, sem dizer que era a estréia do Brasil no primeiro dia de Pan e sem identificar as jogadoras que ilustraram a chamada durante a partida.

Como comparação, na Copa do Mundo em 2006, o UOL criou um selo especial para chamar o evento em sua home page e, no dia da estréia, dedicou todo o alto desta página para festa na Alemanha. Veja abaixo.

Na edição dos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, em 2003, antes mesmo de o evento começar, o UOL dava manchete para o assunto. Veja abaixo reprodução em preto e branco da home do UOL no dia 1º de agosto de 2003.

Os Jogos Pan-Americanos vão dominar a cobertura esportiva até o final do mês, estão acontecendo no Brasil e reúnem a maior equipe de jornalistas em ação no momento no UOL. O site do Pan está completo, rico de informações, reportagens especiais, fotos e vídeos. Toda a importância do evento e todo o investimento do UOL não foram, pelo menos hoje, refletidos pela home page do portal.

Os principais concorrentes levaram o jogo do Brasil à manchete. O tratamento dado pelo UOL reforça a tese relatada à ombudsman por alguns internautas de que o portal ‘torce contra’ o Brasil e o esporte (vou tratar desse assunto com mais calma na semana que vem). Até a Folha Online criou um bloco do Pan em sua home page.

‘Meninas do Brasil’

Para piorar, a não-identificação das jogadoras pode ser interpretada como descaso com o usuário médio, que não acompanha de perto o futebol feminino, apesar de torcer pelo Brasil. Quem são as moças das fotos abaixo? Quem as conhece não se sentiria ofendido em ler seus nomes. Quem não as conhece ficou sem saber. Jornalismo deve conter informação de qualidade, didática e precisa.

São elas: Pretinha, Daniela Alves (duas vezes) e Cristiane Silva.

A defesa do UOL

A seguir, o que diz o gerente geral de notícias do UOL, Rodrigo Flores, sobre a estréia do Pan.

Tereza,

No meu modo de entender, a home do UOL deu o destaque devido ao início das competições do Pan.

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que o Pan só começa oficialmente amanhã. E o internauta do UOL pode ficar tranqüilo, pois o portal dará grande destaque à cobertura jornalística do evento.

Houve jogos hoje, é verdade. E eles foram noticiados pela home do UOL, até mesmo a partida entre Argentina e Panamá, que abriu a competição às 11h. Lembro que agora, 17h34, as duas primeiras fotos do espaço rotativo, uma área nobre da capa do UOL, destacam o Pan.

O espaço limitado muitas vezes não nos permite identificar atletas em esportes coletivos. Eles representam times ou seleções, e nesses casos a supressão é aceitável, ainda que indesejada. Abaixo, mostro que critério aplicado às ‘meninas do futebol’ foi o mesmo usado para o jogo dos ‘meninos do vôlei’ ou da seleção masculina de futebol.

Por fim, gostaria de lembrar que a comparação com a Copa do Mundo é perigosa. São eventos de naturezas completamente diferentes. Durante toda a Copa da Alemanha, o Brasil jogou cinco vezes. No Pan, atletas brasileiros estarão em ação praticamente todos os dias, nos três períodos.

Obrigado,

Rodrigo Flores

Gerente geral de notícias do UOL

***

Daiane amarelo-esverdeada (11/07/2007)

Passeando hoje pelo UOL deparei-me com duas fotos que me fizeram parar para refletir. A primeira, na home page do portal, mostrava uma Daiane dos Santos amarelo-esverdeada. A outra, na home do site do Pan-Americano, um cavaleiro de cara borrada. Isso levou-me a passear por outras áreas do portal e selecionar outras imagens, publicadas abaixo.

As fotos, da esquerda para a direita, foram retiradas das home pages de UOL Celebridades (Giovanna Antonelli), UOL Jornais (cena do filme Blade Runner), Pan-Americano (o cavaleiro Rogério Clementino), do UOL (Daiane dos Santos) e UOL Estilo (a editora de moda Biti Averbach). Poderiam ter sido retiradas de praticamente qualquer área do portal. Têm qualidade sofrível, mal identificam o objeto fotografado (exceto, na minha opinião, no caso de Daiane dos Santos) e trazem pouquíssima informação.

Há, claramente, problemas no tratamento das imagens, fazendo com que sua qualidade seja ruim. A freqüência e abrangência do problema, porém, levam-me a discutir aqui a adoção desse padrão de miniimagem, de 66 x 66 pixels.

Estudo do Poynter Institute de 2007 mostra fotos maiores são vistas por mais pessoas (50%) do que fotos pequenas (20%). Esse mesmo estudo revela que, na Internet, o primeiro olhar do internauta vai para as barras de navegação e elementos de estrutura de navegação, antes mesmo do que para as fotos. Assim, pergunto: por que se valer de imagens tão pequenas, que trazem tão pouca informação e que disputam o olhar do internauta com tantos outros elementos?

O Manual da Redação da Folha de S.Paulo diz: ‘o recurso visual do jornalismo impresso moderno deve ser entendido como uma possibilidade complementar e suplementar à informação textual. Não serve apenas para ‘arejar a página’ ou ‘valorizar a notícia’, tampouco para preencher eventuais vazios.’ Será que o mesmo princípio não deveria nortear a edição fotográfica na Web, mesmo levando-se em conta o forte potencial de entretenimento desta mídia? Ou, no mínimo, o UOL não deveria garantir uma qualidade soberba das imagens publicadas?

Não está na hora de o UOL apostar em fotos maiores, mesmo que mais ‘pesadas’? No início da Internet, com a maioria dos usuários em conexão dial-up, era fundamental ter a página o mais leve possível. O uso exagerado de fotos tornava, às vezes, impraticável a visualização de uma página, de tão lenta que ficava. Nos tempos de banda larga, esse norte não pode ser revisto? Será que não dá para pensar numa versão banda larga e outra banda estreita, dando assim imagens de dar ‘água na boca’ do público em vez de Daianes amarelo-esverdeadas? Se o portal avaliar que ainda não é a hora, como garantir qualidade nas imagens publicadas?

UOL com a palavra

‘A triste equação ‘qualidade sofrível x pouquíssima informação’ não é aplicada apenas a fotos pequenas. A qualidade sofrível está relacionada ao tipo de tratamento dado a imagem ou à falta de qualidade inicial da imagem tratada. Não está relacionada ao tamanho. Acho o formato 66 x 66 muito bom para rosto, por exemplo’, afirma a gerente geral de interface do UOL, Luciana Fernandes de Faria.

Para ela, a função principal dessas imagens é ilustrar a notícia ou conteúdo. ‘Adoraria aumentar o tamanho de todas as fotos usadas no portal, mas acho que ainda esta é uma ação inviável, visto que ainda temos uma audiência considerável de banda estreita.’

Luciana Faria afirmou que vai rever o limite de peso desses thumbs (as imagens de 66 x 66 pixels) e comunicará os novos limites à redação. Isso pode dar um fôlego para a melhoria das imagens publicadas.

Quanto ao aumento da dimensão das fotos, diz que isso vem acontecendo gradativamente. ‘Nos novos projetos não temos mais a rigidez do limite de peso e com isso conseguimos publicar um número maior (e com tamanho maior) de imagens’.

Ela descarta ter versões banda larga e banda estreita. ‘O número de páginas que temos para administrar é algo absurdamente grande, e aumenta a cada dia. E mesmo com todo empenho, não é raro encontrarmos problemas em templates, erro e falhas no carregamento em determinados browsers. Imagine duplicar todo esse trabalho por dois…. Inviável’

***

Publicidade x conteúdo (10/07/2007)

No começo deste ano, o UOL passou a veicular publicidade em sua home page, onde antes somente entravam fotos de assuntos jornalísticos e/ou de entretenimento (como a da boneca japonesa acima). Uma das propagandas, inclusive, provocou reação do público e do UOL ao semear confusão e medo nos internautas: era a campanha de lançamento de um carro. A propaganda, tanto no espaço da foto principal da home quanto para quem nela clicasse, mimetizava notícias, não falava do tal carro e sim de um asteróide (verdadeiro) que iria se chocar com a Terra (inverdade). Nesse caso, o próprio UOL retirou a propaganda do ar, porque ela não atendia às normas da empresa.

Acontece que muitos leitores têm escrito para criticar o uso, mesmo que sinalizado por ‘publicidade’, do espaço nobre da home page. Eles teceram, em seus e-mails e comentários, várias considerações, que divido abaixo com vocês.

‘.. ocupando o espaço exato onde ficam as notícias de destaque. Para um internauta desavisado uma propaganda passa a ter valor de notícia. Como se o UOL colocasse aquela informação como uma realidade e não como uma jogada de marketing. Nós clicamos em um botão ‘fechar’ e ela some. Mas o recado foi dado. Parece-me antiético.’ (Carlos, da Bahia)

‘Gostaria da sua ponderação quando um anúncio é inserido no slide-show de fotos da página inicial. Essa novidade é recente. Permito-me externar minha indignação, pois durante muitos anos o UOL manteve seu site limpo desse lixo mercadológico, mas agora ‘caiu em tentação’’. (Paulo, de São Paulo)

‘Ultimamente, o UOL tem tido a infeliz idéia de usar o espaço dedicado às principais notícias e imagens do dia ao uso de sua publicidade. Já temos um excesso de publicidade no site, o que o torna visualmente poluído.’ (Adriano, de Pernambuco)

‘Na minha opinião, é inadmíssivel misturar conteúdo com publicidade, sem limites como no caso.’ (Ailton, de Goiânia)

‘Ocupar o espaço do álbum fotográfico da página inicial é um absurdo. Às vezes me confundi e atrapalha muito a navegação’. (Marcelo, de São Paulo)

Boa parte deles reconhece a necessidade de haver publicidade no portal, para que se viabilize economicamente. Os internautas pedem, apenas, que haja respeito ao que consideram área puramente editorial.

O diretor de Publicidade do UOL, Enor Paiano, responde:

‘A Internet é uma mídia nova que ainda está buscando seu formato ideal de publicidade, e nesse sentido estamos experimentando novos formatos o tempo todo. Ao criarmos este espaço novo nos preocupamos com o seguinte:

privilegiar o conteúdo editorial; portanto, a publicidade, quando veiculada, só aparece na quinta imagem, sendo as 4 primeiras imagens editoriais

a decisão de continuar vendo o anúncio é do usuário; caso ele clique no botão ‘fechar’, ele não verá mais o anúncio, a não ser que feche o navegador e abra novamente

indicar claramente que se trata de publicidade

valorizar o espaço, restringindo a quantidade de vezes por semana em que ele pode ser utilizado

Vale lembrar que até agora tivemos uma quantidade pequena de veiculações, mas com resultado excelente para os anunciantes – estamos falando de dezenas ou centenas de milhares de pessoas interagindo com esta publicidade a cada veiculação. Isso parece indicar que, assim como alguns internautas não gostam do formato, outros se interessam pelos produtos ou serviços mostrados ali.’

Concordo com Enor Paiano que a Internet é uma nova mídia e que experimentações devem ser feitas. Reconheço a força da publicidade. Pondero, apenas, se não seria o caso de deixar mais clara a separação entre o que é conteúdo editorial e o que é propaganda. Até porque o Código Brasileiro de Auto-Regulamentação Publicitária traz em seu artigo 23 que ‘os anúncios devem ser realizados de forma a não abusar da confiança do consumidor, não explorar sua falta de experiência ou de conhecimento e não se beneficiar de sua credulidade’. No artigo 28 diz que ‘o anúncio deve ser claramente distinguido como tal, seja qual for a sua forma ou meio de veiculação.’

O quanto do sucesso de interação citado por Paiano se deve justamente à confusão do internauta?

Se quiser colaborar, vote na enquete na lateral direita de meu blog sobre o tema.

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