Quinta-feira, 19 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Veja

21/04/2009 na edição 534

TELEVISÃO
Marcelo Marthe

Adrenalina brasileira

‘Nos bastidores de Força-Tarefa, seriado policial que estreou na última quinta-feira na Globo, o consumo de preservativos é elevado: foram gastos 150 nos seis primeiros episódios. Mas o material não serviu para sexo, e sim para promover o derramamento de sangue. Para criar a ilusão de que as balas de festim produzem perfurações em suas vítimas, recorre-se a um truque: os atores carregam bolsas com explosivos sob as roupas, detonados por controle remoto no momento em que são ‘atingidos’ pelas balas. Junto com esses explosivos vai o sangue artificial que jorrará dos ferimentos fictícios.. Os técnicos da Globo descobriram que os preservativos são uma solução prática para armazenar o líquido (mistura de corante vermelho e açúcar que lembra ketchup). Pormenores assim revelam a aventura de gravar uma cena de ação – território virgem na TV brasileira até poucos anos atrás e que agora vem sendo crescentemente explorado. A Record investe nisso em suas novelas, assim como o fez na recém-exibida série A Lei e o Crime. O folhetim Poder Paralelo, que estreou na semana passada, reafirma essa opção. No primeiro capítulo da história sobre crime organizado – com um personagem inspirado, pasme, no delegado Protógenes Queiroz (veja o quadro) – houve uma perseguição de helicópteros e um atentado a bomba. A Globo flertou com a ação no seriado A Justiceira, lá se vão doze anos. Desde então, tais cenas só surgiam esporadicamente em suas novelas. Força-Tarefa muda essa equação: a série, com Murilo Benício no papel de um policial que caça outros tiras corruptos, é pródiga em tiroteios e corre-corres.

Nos Estados Unidos, a ação é um gênero que remonta aos filmes de gângsteres dos anos 30. Isso fez surgir um mercado voltado à gravação dessas cenas, de empresas de efeitos especiais a agências de dublês. Nas superproduções de Hollywood, não raro os cineastas confiam a direção dessas sequências a especialistas no ramo. No Brasil, os filmes Cidade de Deus e Tropa de Elite encontraram formas originais de, por assim dizer, coreografar a violência dos morros cariocas – o que abriu a trilha para o que se poderia chamar de uma ação à brasileira. Os investimentos reiterados da Record, bem como os da Globo em Força-Tarefa, demonstram que essa vertente tem seu apelo na TV. Mas as emissoras precisaram absorver rapidamente macetes que os americanos aperfeiçoaram ao longo de décadas. E ainda têm chão a percorrer. Na novela Duas Caras, a Globo deu vexame com a sequência da invasão da favela da Portelinha por traficantes – as vítimas caíam sem ao menos se verem as marcas dos tiros. A Record também abraçou o ridículo na novela Os Mutantes, em que se valeu de efeitos de computação toscos. Com seus novos programas, as redes têm a chance de reverter esse jogo.

Gravar uma obra de ação é uma operação cara e complexa. Cerca de 90% das cenas de Força-Tarefa são feitas em locações externas, contra não mais que 40% numa novela das 8. Embora os tiroteios e as explosões não tenham presença acentuada em todos os doze episódios, esses itens contribuem bastante para o custo médio de cada um deles, de 550.000 reais – três vezes o que a Globo gasta numa comédia como A Grande Família. Um episódio leva sete dias para ser gravado, o dobro do normal. ‘Fazer uma série policial é um exercício físico intenso. Os atores ficam exaustos’, diz o diretor José Alvarenga Jr. No caso de Murilo Benício, queimar calorias até que é providencial: com declarados 4 quilos a mais, o ator exibe uma pança notável.

As sequências de Poder Paralelo também dão trabalho. O atentado que fechou o primeiro capítulo – e garantiu pico de 15 pontos no ibope – requereu gravações na cidade italiana de Palermo e no Brasil. Na cena, um automóvel explode, matando a mulher e as filhas do mafioso Tony Castellamare (Gabriel Braga Nunes). A produção destruiu um carro na Itália, com bombeiros de prontidão. As imagens em que os personagens são lançados para trás pela detonação foram feitas com dublês – puxados, na verdade, por cabos de aço. Para terminar a sequência, tudo isso teve de ser repetido no estúdio no Brasil meses depois, com uma enorme tela neutra ao fundo, na qual se projetou o cenário de Palermo. Usaram-se ainda efeitos de computador para dar a impressão de que uma língua de fogo engolia os personagens. No total, noventa pessoas participaram da cena. ‘Nosso desafio era não machucar ninguém’, diz o diretor Ignácio Coqueiro.

Nessas gravações há um componente quase artesanal. Cada situação requer uma solução à la Professor Pardal.. A Globo conta com dois especialistas nisso: os mexicanos Federico Farfán, que cuida dos efeitos, e Javier Lambert, treinador dos dublês. Ambos são veteranos que já atuaram em produções de Hollywood. Trabalham na Globo desde A Justiceira, mas passaram os últimos anos meio encostados, até surgir a nova oportunidade de exibir seus dotes. Atualmente, Lambert divide-se entre Força-Tarefa e as filmagens no Brasil do novo trabalho de Sylvester Stallone. Farfán foi quem bolou o uso inusitado dos preservativos. Para ele, o segredo de uma cena de ação é que ela produza tensão de verdade no set. Ele sabe bem do que fala: quando participou de Rambo II, o que era para ser uma queimadura de mentira no rosto de Stallone acabou machucando o ator de verdade. ‘Ele ficou com uma bolha horrível. E me xingou muito’, conta.

EXPLOSÕES

O desafio: produzir cenas de destruição que não exponham atores nem dublês a riscos

A solução da TV: na novela Poder Paralelo, da Record, uma única cena – a explosão de um carro num atentado – consumiu três meses de trabalho. Foi necessário destruir dois automóveis, um na locação original, na Itália, e outro no estúdio. As gravações foram monitoradas por bombeiros

TIROTEIOS

O desafio: sincronizar os disparos das armas com as marcas das balas

A solução da TV: quando os tiros de festim são disparados na série Força-Tarefa, da Globo, técnicos detonam por controle remoto cargas explosivas escondidas sob as roupas das vítimas. É isso que produz os buracos nos corpos e os jorros de sangue artificial

PERSEGUIÇÕES

O desafio: imprimir ritmo ágil a essas cenas, gravadas quase sempre em locações crivadas de obstáculos, como ruas movimentadas e favelas

A solução da TV: na sequência de perseguição urbana de Poder Paralelo, os atores tinham suas imagens gravadas por um operador que os seguia com a câmera em punho. Outra câmera captava imagens do alto. Na mesa de edição, fragmentos dessas cenas foram alternados

HERÓI DE ARAQUE

Na novela Poder Paralelo, da Record, Téo (Tuca Andrada) é um delegado da Polícia Federal com pinta de galã e comportamento heroico – nos primeiros capítulos, ele se arriscou em vários momentos em nome da luta contra o crime organizado. Mas Téo se inspira num personagem real que não se enquadra, definitivamente, no perfil de galã nem, menos ainda, no de herói: Protógenes Queiroz, o delegado da PF que cometeu abusos e ilegalidades nas investigações da Operação Satiagraha. ‘Era inevitável que Protógenes fosse meu exemplo’, diz o noveleiro Lauro César Muniz. ‘Assim como ele, Téo passa por cima da lei e da burocracia policial por seus objetivos.’ Ao saber que inspiraria o personagem de Poder Paralelo, o próprio buscou uma aproximação com o autor – que, ao que consta, não teria vingado. O Protógenes da Record promete. Ele já fez sexo com uma colega. E atuou em outro país, a Itália, de arma e distintivo em punho, à revelia das autoridades locais. Noveleiro de esquerda, Muniz dará sua contribuição para a mistificação de Protógenes. No livro em que se baseia a trama, Honra ou Vendetta (2001), de Sílvio Lancellotti, o tal delegado era submisso a um mafioso. Agora, é um idealista perseguido por uma organização criminosa com ramificações na política e no empresariado. Se o original foi indiciado pela PF por quebra de sigilo funcional e violação da lei de interceptações, Téo será afastado do cargo por uma conspiração. Será uma vítima do ‘sistema’, enfim. ‘Não vou aplaudir nem condenar. As pessoas que o julguem’, diz Muniz.’

 

LIVRO
Veja

Caso sem solução

‘O que leva um importante historiador a exumar uma chacina acontecida em 1938? Essa é a questão que o leitor se coloca já no início da leitura de O Crime do Restaurante Chinês, de Boris Fausto (Companhia das Letras; 264 páginas; 45 reais). Seja pelo título, pela estrutura da narrativa ou pelas ilustrações, esse ensaio histórico tem o formato dos folhetins e prende nossa atenção. O crime é apresentado já nas primeiras páginas. Um casal de chineses prospera com um restaurante próximo à Praça da Sé. Mas na manhã de Quarta-Feira de Cinzas eles e mais dois funcionários que dormiam no estabelecimento são encontrados mortos. A imprensa toda se dedica a noticiar, nem sempre com precisão, o crime bárbaro, exigindo da polícia a resolução do caso.

Em capítulos breves, Boris Fausto reconstitui cada lance da incriminação de Arias de Oliveira, um negro recém-chegado de Franca que havia trabalhado no restaurante. O que o torna o principal suspeito é o fato de ter se demitido dias antes para aproveitar o Carnaval. Num meio em que se valoriza a presença obreira do imigrante, a desconfiança recai numa pessoa identificada com a indolência e o prazer. Embora houvesse outros suspeitos, é Arias quem acaba preso. Aí está implícita a ideia do Brasil como país da preguiça, da malandragem e da festa. Um país que deve ser reprimido.

Era necessário, no entanto, provar o crime. Arias passa por um interrogatório psicológico à luz da Escola Positiva de Medicina. Mas é o clima opressivo da cultura e do cárcere que o leva a confessar tudo, embora os médicos afoitos vejam nisso um triunfo da ciência. Na ótica destes, o crime se esclarecera. Arias teria voltado ao restaurante para recuperar a colocação, pedira para dormir lá, tal como os outros empregados, e, faminto, depois de noites de farra, tivera a ideia do roubo, vendo-se obrigado a matar todos. Tal teria sido a versão oficial se não tivesse entrado em cena a União Negra Brasileira, entidade que lutava contra a discriminação racial.. Ela escala um jovem advogado, Paulo Lauro, que mostra a fragilidade das provas. Ele nega as certezas científicas que transformam o jovem pacato em um perigoso facínora, devolvendo-o à sua estatura real, a de alguém em busca de trabalho.

FANTASMAS

Nessa mudança de olhar entram alguns elementos simbólicos, que o autor explora com propriedade e sutileza. Se o gosto pela festa carnavalesca é usado contra Arias, a disputa da Copa do Mundo de 1938 o ajuda. A seleção brasileira tem um herói, Leônidas, que é muito parecido com Arias, e que também sofre de discriminação. Há uma afirmação de nossa nacionalidade pelo futebol, e isso cria um ambiente propício para a mudança da opinião pública sobre o jovem acusado.

Depois de lances cinematográficos, Arias é absolvido pelo tribunal do júri. O crime nunca é solucionado. Arias volta ao anonimato e o leitor chega ao último capítulo, quando Boris Fausto dá os motivos que o levaram a eleger esse episódio. Além da possibilidade de estudar o preconceito e o começo de uma estabilização de nossa identidade, ele se reporta a uma passagem autobiográfica. Como participara do Carnaval de 1938, o crime ficou ressoando em sua imaginação desde a infância. Escrever a história é uma forma de exorcizar velhos fantasmas. E esse dado final dá um sentido maior ao livro.’

 

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