Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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VOZ DOS OUVIDORES > "Folha de São Paulo"

Vera Guimarães Martins

14/12/2015 na edição 880
"Cajadada (e cenoura) para todos os coelhos", copyright Folha de São Paulo 13/12/2015

Escândalo de corrupção, pedidos de cassação do presidente da Câmara e de impeachment do presidente da República. O país já enfrentou todas essas situações, mas nunca ao mesmo tempo, como agora. A imprensa já roteirizou esses filmes, mas fazia neles um papel mais confortável. Não havia internet, e o impresso vivia dias melhores.

Quando estourava notícia quente no meio da noite, o jornal aumentava o número de páginas. Agora, a regra é adaptar o conteúdo ao espaço existente, mesmo que isso implique a derrubada de reportagens que já circularam na primeira edição, enviada aos lugares mais distantes. Quando o tempo esquenta, o improviso dá o tom, e as chances de erro se multiplicam.

Foi o que ocorreu na terça (8), com a revelação tardia da carta de Michel Temer. O jornal teve que mudar a “Primeira Página” e a cobertura de “Poder”. A edição ganhou em temperatura, mas perdeu em equilíbrio; ficou meio Frankenstein.

Caiu a reportagem sobre a entrevista coletiva de Dilma, mas ficaram suas fotos, inclusive na capa: uma imagem algo suplicante. Ok que a situação da mandatária está a anos-luz de ser tranquila, mas por que o ar contrito e lamentoso?

A escolha abria margem para leituras à esquerda e à direita: o desabafo do vice colocara Dilma, a mentirosa, nas cordas, ou ela era vítima de um traidor de olho no seu cargo?

A manchete extrapolou, indo bem além das tamancas: “Temer acusa Dilma de mentir”. Hein? De novo, ok que ambos estão longe de compartilhar o mesmo lanche (até porque o disputam), mas onde estavam na carta os trechos que permitiam usar termos como acusar e mentir?

Linguagem importa muito na política –e o peemedebista, doutor em direito, mede cada palavra. Linguagem importa mais (ou deveria) no jornalismo, a quem cabe reproduzir o mais fielmente possível os fatos.

Em condições normais de temperatura e pressão, é a temperatura jornalística que se impõe; vale a notícia mais “quente”. Ou seja, faria todo sentido derrubar o texto do discurso de Dilma para publicar a íntegra da carta do vice –ela fala sempre e nada disse de excepcional; ele, num ato inédito, soltou o verbo.

Essa lógica deixa de ser tão “lógica” num cenário de divisão política. Mesmo que a balança da opinião pública penda mais para um lado, e isso é fato, quem tem como meta o jornalismo imparcial tem que garantir espaço para os dois pratos.

Esse dilema é menor no digital, mas não deixa de existir. Na internet, tudo cabe e entra a qualquer hora, mas a prodigalidade se traduz num mar de informação que pode deixar o leitor à deriva ou matá-lo afogado. Nem ali se prescinde da curadoria do conteúdo, e a busca do equilíbrio se dá na homepage, a “capa” do jornal digital, onde se deve garantir espaço balanceado.

A empreitada é difícil e nem sempre recompensada. Haverá leitores reclamando do espaço concedido a este ou àquele, mas, como se diz no mundo dos cartoons, “sorry, folks”. Na vida real é mais difícil saber quem é o coelho e quem é o caçador.

Reprodução
Primeira página da edição nacional
Primeira página da edição nacional
Reprodução
Primeira página da edição de São Paulo
Primeira página da edição de São Paulo
Reprodução
Capa do carderno Poder na edição nacional
Capa do carderno Poder na edição nacional
Reprodução
Capa do carderno Poder na edição nacional
Capa do caderno Poder na edição de São Paulo
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Página 5 da edição nacional
Página 5 da edição nacional
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Página 5 da edição nacional
Página 5 da edição de São Paulo

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