Segunda-feira, 14 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1058
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VOZ DOS OUVIDORES >

Vera Guimarães Martins

Por Carlos Castilho em 02/02/2016 na edição 888

Manchete da Folha nesta sexta (29): “Odebrecht bancou reforma de sítio usado por Lula, dizem fornecedores”. Foi um furo, e todo furo merece ser comemorado, mas há neste, em particular, um diferencial que o torna digno de nota: a revelação do repórter Flávio Ferreira foi obtida a partir de entrevistas com personagens até então fora do radar dos investigadores da Lava Jato.

É caso raríssimo de reportagem que não foi calcada em vazamentos ou depoimentos oficiais, mas em personagens identificados e que falaram às claras (o chamado “on”), fato inusual em escândalos com personagens poderosos: a dona da loja que forneceu o material de construção, um marceneiro, vizinhos e até um engenheiro da Odebrecht na arena do Corinthians, que, segundo disse ao jornal, fez um bico no sítio de Lula dando apoio informal e gratuito à obra quando estava de férias –mesmo sem saber que ela tinha qualquer ligação com o petista.

Quem acompanha esta coluna sabe que ela é crítica à dominância dos vazamentos anônimos. Não por algum purismo romântico –afinal, grandes furos nasceram assim–, mas por convicção de que o noticiário alimentado por fontes anônimas e desapegado de provas deveria ser a exceção. Na Lava Jato, foi a regra, principalmente na fase inicial.

Não foi a única inflexão acarretada pela megaoperação. Há não muito tempo, era o jornalismo investigativo que acionava o gatilho dos escândalos nacionais e “puxava as penas” que revelavam galinhas insuspeitas, para usar a metáfora atribuída ao ministro Teori Zavascki, do STF. A Lava Jato mudou esse eixo, graças, talvez, à combinação de dois movimentos opostos e independentes que ocorreram simultaneamente: um de contração, forçado por contingências setoriais, outro de expansão, forjado na maturidade das instituições.

Nos últimos anos, as Redações encolheram, perderam parte dos profissionais mais experientes e foram sobrecarregadas com a demanda imediata da cobertura digital.

Ao mesmo tempo, instituições como o Ministério Público e a Polícia Federal aprenderam com fracassos anteriores, ganharam musculatura e “expertise” e assumiram protagonismo inédito. Em parte atordoada pelos solavancos internos, a imprensa se acomodou e foi a reboque.

A reportagem apurada em Atibaia inverteu esse roteiro e impôs sua própria agenda, trilhando o passo a passo clássico do trabalho de repórter: frequentou a cidade, conheceu e deu-se a conhecer, conversou e apurou para contar uma história que estava logo ali, à procura de autor.

 

Definidos pelo que lemos?

A estreia de Kim Kataguiri como colunista no site e a discussão sobre pluralidade de opinião exposta neste espaço na semana passada renderam trocas de ideias interessantes com parte do leitorado.

Editei abaixo parte da mensagem de José Costa Júnior, professor de filosofia e sociologia do Instituto Federal de Minas Gerais, campus Ponte Nova, cujas reflexões valem a pena compartilhar.

“O jornal sempre foi reconhecido pela distinção de seus colunistas, que diariamente levam às nossas casas e opiniões,substratos relevantes. No entanto, tenho identificado um movimento estranho. Cada vez mais o time de colunistas tem refletido o debate que ronda o Brasil. Uma divisão ideológica estranha e fantasmagórica que chateia e provoca, em vez de informar e discutir.”

“O que houve? Jogar para –e com– as torcidas? Oferecer munição para ambos os lados, com colunistas cada vez mais identificados com ‘os lados’?”

“Sei que se trata de um movimento que acabará por dominar o território jornalístico brasileiro. Em breve, o que leremos nos definirá.”

“Hegel apontou a leitura do jornal como a oração daquele que costuma tentar compreender a realidade. No entanto, a leitura da realidade dividida em ‘lados’ informa menos, para não dizer que deforma.”

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