Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Vera Guimarães Martins

Por Carlos Castilho em 30/04/2016 na edição 900

Mensagem de Isabela Torezan, 19, de Londrina (PR): “Sou estudante e leitora da Folha desde os 14 anos, e gostaria de expressar meu desconforto com a capa da edição impressa do dia 18/4, que trazia a palavra IMPEACHMENT grafada em letras maiúsculas e ainda acompanhada de “!”. Além de sensacionalista, ela desinforma o leitor, porque anuncia um fato que não ocorreu. A própria sequência da manchete desmente o fato de que a presidente Dilma já tenha sofrido impeachment.”

“Se entendi corretamente, essa capa mimetiza a de 1992, quando Collor foi deposto. A Folha igualou a abertura de um processo a uma deposição? Se Dilma realmente sofrer o impeachment, o jornal vai usar que manchete exagerada? O compromisso do jornal é trazer informações claras, que não se contradigam nem ultrapassem os fatos. É o direito do leitor receber isso, independentemente do quão feliz ou triste está com o resultado da votação.”

Assino embaixo (no caso, acima) da mensagem de Isabela. Mimetizar a “Primeira Página” da votação do impeachment de Fernando Collor foi uma ideia infeliz. Primeiro, a situação política de ambos é diferente. Segundo, o deplorável espetáculo da votação provocou uma incômoda sensação da história que se repete como farsa (com perdão pelo clichê). O repeteco da capa reforçou esse sentimento e aproximou a Folha da falta de sobriedade esbanjada na Câmara dos Deputados.

Deixo claro que não estou pondo em dúvida a legalidade do processo nem endossando a narrativa governista do “golpe”. Lastimo unicamente a falta de comedimento que acaba erodindo a tentativa deste jornal de manter uma posição mais equilibrada em meio à histeria.

Vinicius Mota, secretário de Redação/Edição, defende a escolha: “Impeachment, em sua primeira acepção, é o nome do processo por crime de responsabilidade. Ao final dele, no Senado, poderá ou não ocorrer a deposição constitucional”.

A encrenca é que a segunda acepção do termo é muito mais popular: para o senso comum, impeachment é a destituição do mandatário.

Mota afirma que a exclamação “destaca a incidência excepcionalíssima desse acontecimento”. Eu diria que nem tão excepcional assim, já que ocorre pela segunda vez em 24 anos. Além disso, o sinal gráfico conferiu ao enunciado um ar de júbilo pouco condizente com o editorial “Nem Dilma nem Temer” e a gravidade que o momento exige.

*

FIM DE TEMPORADA, LEITOR

O “top 3” das profissões mais estressantes, segundo um gozador no Twitter: 1) controlador de tráfego aéreo; 2) recolhedor de animais mortos na pista e 3) ombudsman da Folha. A piada tem muito de exagero e um tanto de razão.

Não faltam ofícios mais pródigos em estresse e mofinos em recompensa do que este, mas concordo com colegas que me precederam: dois anos é o prazo de validade ideal, embora a regra permita o dobro. Decidi ficar na metade, convicta de que meio caminho andado já foi um caminho e tanto.

Ser ombudsman é um grande privilégio e um magnífico aprendizado. Há quem pense que o cargo nada mais ofereça do que uma sucessão de embates frustrados com a Redação. Falso e injusto.

Este espaço dominical é só a face pública e, portanto, a mais visível do trabalho. Cabe ressaltar a valiosa experiência da crítica diária que circula internamente na Redação, dedicada a discutir erros e acertos da edição, sugestões, correção de rumos. Ver boa parte dessas intervenções contempladas nos jornais dos dias seguintes é regalia profissional para poucos.

Deixo um enorme agradecimento ao leitorado que me acompanhou de perto, tecendo críticas polidas, apontando problemas, debatendo ideias, semeando afeto. Obrigada sobretudo àqueles imbuídos da consciência de que “o leitor da Folha” é uma entidade composta de milhões de cabeças diferentes. Vocês são a melhor parte do todo.

Quero agradecer às centenas de assinantes, figuras públicas ou não, entrevistados para a crítica interna. Suas opiniões foram baliza preciosa para a ombudsman e o jornal.

Meu apreço aos colegas que encararam as críticas públicas com a compreensão de que elas são dever do ofício e do processo.

Por fim, meu respeito à direção da Folha pela absoluta liberdade concedida ao meu trabalho.

Desejo felicidades a Paula Cesarino Costa, uma das profissionais mais experientes e capacitadas deste jornal, a quem passo o bastão.

Boa sorte a todos nós.

Vera Guimarães Martins

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