Sunday, 22 de December de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1319

Petrobrax para iniciantes

Eu estava mesmo querendo falar sobre essa incrível cruzada ao fundo do poço que a oposição, PSDB à frente, decidiu empreender contra a Petrobras, justo no momento em que a empresa se posiciona como uma das grandes do planeta. Sim, a inveja é uma m…, todo mundo sabe disso, mas mesmo a mais suntuosa das privadas tem um limite de retenção.


Como não se faz CPI no Brasil sem um acordo prévio com publishers e redações, fiquei quieto, aqui no meu canto, com meus olhos de professor a esperar por um bom exemplo para estudo de caso, porque coisa chata é ficar perdido em conjecturas sem ter um mísero emblema para oferecer aos alunos ou, no caso, ao surpreendente número de pessoas que vem a este blog dar nem que seja uma olhada. Pois bem, esse dia chegou.


Assinante do UOL há cinco anos, é com ele que acordo para o mundo, o que não tem melhorado muito o meu humor matutino, diga-se de passagem. De cara, vejo estampada, em letras garrafo-digitais, a seguinte manchete:


‘Petrobras gastou R$ 47 bi sem licitação em seis anos’


Teca, minha cocker spaniel semi-paralítica, se aninha nos meus pés, mas eu não consigo ficar parado. Piso nas patas traseiras dela, mas, felizmente, ela nada sente. A dedução, de tão lógica, me maltrata o ânimo. Se tamanha safadeza ocorreu nos últimos seis anos, trata-se da Era Lula, redondinha, do marco zero, em 2003, até os dias de hoje. Nisso, pelo menos, a matéria não me surpreende. Está lá:


‘Desde a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Petrobras gastou cerca de R$ 47 bilhões em contratos feitos sem licitação, informa reportagem de Rubens Valente, publicada na Folha desta quarta-feira’ (íntegra disponível para assinantes do UOL e do jornal).


‘Não atualizados’


Pá-pá-pá. Preto no branco. Tiro à queima roupa. Um lead jornalístico seco como biscoito de polvilho. Desde que chegou ao Planalto, Lula deixou a Petrobras gastar 47 bilhões de reais em contratos sem licitação. Vamos, portanto, à CPI. Nada de chiadeira. Demos e tucanos, afinal, têm razão. Bilhões delas. Dane-se o pré-sal e o mercado de ações. Quem for brasileiro que siga Arthur Virgílio!


Mas, aí, vem o maldito segundo parágrafo, o sublead, essa réstia de informação que, pudesse ser limada da pirâmide invertida do texto jornalístico, pouparia à oposição tocar a CPI sem o constrangimento de ter que bolar malabarismos retóricos em torno das informações que se seguem. São elas, segundo a Folha Online:




‘Amparada por decreto presidencial editado por Fernando Henrique Cardoso em 1998 e em decisões do STF (Supremo Tribunal Federal), a petroleira contratou sem licitação serviços como construção, aluguel e manutenção de prédios, vigilância, repasses a prefeituras, gastos com advogados e patrocínios culturais, entre outros. O valor corresponde a 36,4% do total de gastos com serviços (R$ 129 bilhões) da petroleira de janeiro de 2003 a abril de 2009.


‘A prática não começou com Lula. Somente entre 2001 e 2002, sob a administração de Fernando Henrique (PSDB-SP), a petroleira contratou cerca de R$ 25 bilhões sem licitações, em valores não atualizados.’


Novo lead


Parem as rotativas digitais! Contenham as massas! Abatam os abutres! Como é que é? Volto à minha sala de aula imaginária (só poderia ser, porque hoje eu nem dou aula). Vamos fazer uma análise pontual do texto jornalístico, menos pelo estilo, impecável em sua dureza linear, diria até cartesiana, mas pela colocação equivocada das informações. Depois caem de pau em cima de mim porque defendo a obrigatoriedade do diploma. Vamos lá:


1. Na base da pirâmide invertida, há uma informação que deveria estar no lead e, mais ainda, no título da matéria. Senão, vejamos. Se entre 2001 e 2002 a Petrobras gastou 25 bilhões, ‘em valores não atualizados’ (???), em contratos sem licitações, logo, a matéria deveria começar, em seu parágrafo inicial, com a seguinte informação: ‘Nos últimos oito anos, a Petrobras gastou R$ 72 bilhões (R$ 47 bilhões + R$ 25 bilhões, `em valores não atualizados´) em contratos sem licitações’. Então, CPI nessa cambada! Mas que cambada? Sigamos em frente.


2. O mesmo derradeiro parágrafo informa que a ‘prática’ se iniciou ‘sob a administração’ de Fernando Henrique Cardoso, aquele presidente do PSDB. Aliás, reflito, só é ‘prática’ porque começou com FHC. Se tivesse começado com Lula, seria bandalha mesmo. Mas sou um radical, não prestem atenção em mim. Continuemos a trabalhar dentro de parâmetros técnicos e jornalísticos. Logo, a CPI tem que partir para cima do PT e do PSDB. Um pouco mais em cima do PSDB. Por quê? Explico.


3. Ora, até eu que sou jornalista e, portanto, um foragido da matemática, sou capaz de perceber que se a Petrobrax de FHC gastou R$ 25 bilhões (em valores não atualizados!) em contratos sem licitação em apenas dois anos, e a Petrobras de Lula gastou R$ 47 bilhões em seis anos, há um desnível de gastos bastante razoável entre um e outro. Significa, por exemplo, que FHC gastou R$ 12,5 bilhões por ano. E Lula gastou R$ 7,8 bilhões por ano. Ação, segundo a reportagem da Folha, ‘amparada por decreto presidencial editado por Fernando Henrique Cardoso, em 1998, e em decisões do STF (Supremo Tribunal Federal)’. Poderia até acrescentar que a Petrobras vale no mercado, hoje, R$ 300 bilhões, e que valia R$ 54 bilhões quando FHC deixou o governo. Mas é preciso manter o foco jornalístico, sem exageros.


4. Temos, então, uma lógica primária. Com base em uma lei de FHC, amparada pelo STF, a Petrobras tem feito contratos sem licitações, de 2001 até hoje. A ‘prática’ é irregular? CPI neles! Todos. Mas, antes, hora de refazer o título e o lead!


Petrobrás gastou R$ 72 bi em contratos sem licitação, em oito anos




Desde 2001, durante o segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), até abril deste ano, a Petrobras gastou cerca de R$ 72 bilhões em contratos feitos sem licitação. Os gastos foram autorizados, em 1998, por um decreto presidencial assinado por FHC e, posteriormente, amparados por decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Entre 2001 e 2002, a empresa, sob administração tucana, gastou R$ 25 bilhões em contratos do gênero, em valores não atualizados, uma média de R$ 12,5 bilhões por ano. No governo Lula, esses gastos chegaram a R$ 47 bilhões, entre 2003 e abril de 2009, uma média de R$ 7,8 bilhões anuais.’


Bom, não sei vocês, mas eu adoro jornalismo. Em valores atualizados, claro.


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[Reproduzo mensagem enviada pelo repórter Rubens Valente, da Folha de S.Paulo]


Olá Leandro. Sou o autor da matéria. Não faça isso: não elimine, ao informar os internautas, uma parte fundamental da matéria que escrevi. Eu escrevi que a própria atual gestão da Petrobras disse não ser possível nenhuma comparação entre os números das gestões Lula e FHC, já que entre 2001 e 2002 o país viveu um apagão histórico, o que gerou gastos sem licitação muito além do normal. Seria um erro tremendo comparar duas realidades incomparáveis. E a própria atual gestão da Petrobras concorda com isso (em casos de emergência, como um apagão, a lei 8.666 abre espaço para a dispensa da licitação).


Essa informação está no meu texto original, mas vc omitiu-a do seu post. Apenas os leitores com senha do UOL poderão ver a íntegra. Criticar, fique à vontade. Mas não desse jeito. De qualquer forma, pode estar certo que continuo seu fiel leitor e até admirador.


Abraços, Rubens Valente.


Comentário


Caro Rubens, respeito, aliás, muitíssimo, a sua atuação profissional, mas minha crítica não foi à matéria publicada na versão impressa da Folha de S.Paulo, mas à versão digital colocada no portal do UOL, à qual milhões de internautas têm acesso. Naquela versão, depois retirada sem maiores explicações do site, as informações disponíveis apontavam um claro desequilíbrio da mensagem, obviamente manipulada na edição.


Não é possível, dada a impossibilidade de a esmagadora maioria dos leitores da página inicial do UOL ter acesso à versão impressa da Folha, estabelecer um justo sistema de medidas na hora de se interpretar a notícia que por ali ficou estampada. O conjunto formado pelo título e pelo texto disponibilizado, sem outra interpretação possível, favorecia um lado em detrimento do outro. Tenho certeza que você, como repórter, sequer participa da edição online do jornal. Não quis lhe ser injusto, muito menos debochar do seu trabalho. É uma honra tê-lo como leitor. Forte abraço. (L.F.)

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Repórter da CartaCapital