O Globo deu na segunda-feira (28/11) uma correção da barriga momesca cometida domingo em chamada da primeira, na qual o jornal confunde a Eletronuclear, uma das mantenedoras do fundo de pensão Nucleos, com a Eletrobrás. A correção saiu numa linha no pé da primeira página e nas duas primeiras linhas de um box na página 5. Melhor do que nada, sem dúvida, mas muito longe de reparar o agravo cometido.
Para quem não viu, aqui vai a origem do caso na primeira página de ontem:
CPI investiga fundo da Eletrobrás
A CPI dos Correios investiga aplicações do Núcleos, fundo de pensão da Eletrobrás, que podem chegar a R$ 148 milhões. Entre as operações, há títulos comprados ao fraudador Cezar Arrieta.
Quatro primeiras linhas da matéria publicada na página 8 do jornal de domingo:
RIO e BRASÍLIA. O Núcleos, fundo de pensão da Eletronuclear, Indústrias Nucleares do Brasil (INB) e Nuclep, aplicou, entre 2003 e 2004, R$ 148,8 milhões em investimentos que estão sob suspeita.(..)
Em nenhum lugar da matéria – nem de sua continuação, publicada na página 12, a que enfoca Arrieta – consta a palavra Eletrobrás.)
Bem, além do fato das desculpas não serem sequer comparáveis ao agravo perpetrado, um outro prejudicado merecia um real pedido formal de desculpas: o leitor. Afinal, ele compra um jornal confiante de que vai ter um mínimo de qualidade nas informações que recebe. Como isso não ocorreu, O Globo deveria ter pedido desculpas aos consumidores pelo mau atendimento, como exigem os freqüentadores de restaurante desrespeitados na seção ‘Boca do Trombone’.
O ponto da qualidade – ou, no caso, falta dela – abre questões que deveriam provocar reflexão daqueles que, pelo menos em teoria, zelam pela qualidade editorial do jornal O Globo e pela conseqüente satisfação de seus leitores:
1)
Como são selecionados e mantidos os profissionais de O Globo? Como um jornal dos mais importantes do país tem em seus quadros jornalistas capazes de cometer erros tão grotescos? Em casos assim a que tipo de sanções estão sujeitos os profissionais? Reprimenda pública? Multas? Demissão? Nenhuma?Não há desculpas
2)
Como são os processos de produção do jornal? Se a velocidade é, cada vez mais, um valor em si no jornalismo, ainda assim é preciso encontrar meios e modos de compatibilizá-la com a precisão da informação. Afinal, é para ter uma informação precisa – se possível relevante – que as pessoas compram um jornal a bom preço (os periódicos no Brasil são caríssimos, até para compensar a sua pequena escala). O que O Globo tem feito para melhorar o seu sistema de checagem de qualidade? Aliás, existe algum? (Não vale o risível ‘Autocrítica’, um mero enfeite da página 2, que, além de inócuo, é feito a posteriori)3)
Um erro absurdo como o cometido na primeira página da segunda (28) detona algum processo de revisão das normas internas na redação de O Globo? Há pelo menos um grupo de profissionais que investigue como ele ocorreu e por que ocorreu? Ou finge-se que erros como esses ‘acontecem nas melhores famílias’ e deixa-se tudo por isso mesmo até o próximo fracasso?Essas perguntas, e sem dúvida muitas outras, deveriam ser respondidas pelos responsáveis pela redação de O Globo, mesmo que apenas internamente. Não há desculpas para não fazê-lo.
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Jornalista (http://www.coleguinhas.jor.br/picadinho.html)