Quinta-feira, 1 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1408

A métrica do excesso

(Foto: Lukas Blazek/Pexels)

Diemerson Sacchetto, psicólogo e diretor-geral do IFES-Campus Vila Velha, submeteu 248.985 palavras publicadas pela jornalista Malu Gaspar a um processamento estatístico de texto e compartilhou os resultados em suas mídias sociais (@diemerson_sacchetto). O corpus reúne 293 matérias da colunista de O Globo, publicadas entre 13 de maio e 11 de setembro de 2026. Segundo a análise, 46 delas, 15,7% do total, concentram-se num único eixo temático, a investigação que atinge o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Esse volume supera o dedicado à campanha eleitoral de 2026, ao caso de Flávio Bolsonaro e ao escândalo do Banco Master tomados em conjunto. O eixo temático mais frequente na produção do período não foi, portanto, a disputa pelo Executivo nacional, mas o imbróglio processual em curso no STF, a Pet 16.662.

Sacchetto utilizou a Classificação Hierárquica Descendente (CHD), método proposto por Max Reinert (1990) ainda no fim dos anos 1980 e popularizado no Brasil por softwares como o IRaMuTeQ. O texto é fatiado em pequenos segmentos, uma matriz de presença e ausência de palavras é construída, e um teste estatístico, o qui-quadrado, vai identificando quais termos se repetem juntos com uma frequência que o acaso não explicaria. Divisões sucessivas produzem uma árvore, um dendrograma, e cada galho final se torna uma classe temática. É assim que se chega ao número, uma classe inteira, estatisticamente coesa, cujos termos centrais são “Moraes”, “investigação” e “STF”.

A robustez do método, porém, não dispensa exame. Pesquisadores da própria área já apontaram análises com IRaMuTeQ que exibem corpus diminutos, índices de retenção implausíveis ou dendrogramas jamais exibidos ao leitor, falhas que tornam a classe temática uma afirmação a ser verificada, não um dado a ser aceito por decreto estatístico. Não se trata de uma impressão de leitura, do tipo que qualquer leitor atento faria ao acompanhar a coluna por alguns meses, mas uma regularidade que o próprio corpus revela, independentemente da intenção ou da percepção de quem o produziu, supondo-se que os parâmetros da análise tenham sido aplicados com o rigor que a técnica exige, algo que uma postagem de mídia social, por definição, não permite auditar. A jornalista pode não ter se dado conta, ou talvez tenha, e a insistência tenha sido deliberada, as duas possibilidades convivem sem se excluir.

Complementando a CHD, a análise fatorial de correspondências projeta esses temas num plano cartesiano, revelando proximidades, “Moraes” e “Vorcaro” aparecem colados, “investigação” gravita perto de “STF” e de “plenário”, enquanto a rede de similitude por índice de Ochiai desenha um grafo de coocorrências, com linhas mais grossas conectando os termos que a jornalista mais repetiu lado a lado. Sacchetto também separou os títulos entre descritivos e avaliativos, distinção que merece mais do que uma menção de passagem, pois um título como “STF marca julgamento” anuncia um fato, um título carregado de juízo de valor já pré-digere a leitura antes mesmo que o texto seja aberto. A proporção entre um tipo e outro, que o material recebido não detalha por classe temática, seria o dado que faltaria para transformar a constatação quantitativa numa leitura mais fina sobre o tom da cobertura, não apenas quanto se escreveu sobre Moraes, mas como se escreveu.

O contexto em que esse dossiê se formou não é hipotético. Na sessão extraordinária do dia 15 de setembro e nos dias subsequentes, o plenário do STF viveu um episódio de desgaste institucional pouco discreto com divergências públicas entre ministros, impasses regimentais, um placar apertado e uma decisão final adiada por tempo indeterminado, com o desfecho projetado para o fim do ano, bem no meio do calendário eleitoral. Não é um pano de fundo qualquer, é uma crise institucional em curso, com desdobramentos que se multiplicam a cada semana e que tocam diretamente a arquitetura de poder do tribunal mais importante do país. Foi justamente desse caldo, turbulento, ainda sem resolução, alimentado por sessões que se sucedem sem consenso, que Malu Gaspar extraiu 46 das suas 293 matérias. A pergunta que fica não é se o assunto mereceria cobertura, evidentemente que sim, e intensamente, dada a gravidade institucional do episódio. A pergunta é outra, e mais incômoda, o que significa, editorialmente, que um único imbróglio processual, por mais denso e relevante que seja, tenha consumido quase um sexto de toda a produção da colunista em quatro meses, superando em volume tanto a corrida eleitoral quanto o escândalo bancário do qual a própria trama Moraes-Vorcaro é derivada? A desproporção não nega a relevância do episódio, apenas revela que relevância e proporção editorial não obedecem à mesma régua.

O ministro Fachin ancorou sua posição no artigo 33 da Lei Orgânica da Magistratura Nacional, que blinda magistrados de investigações policiais autônomas e remete qualquer suspeita de ilícito ao órgão colegiado competente, no caso de ministros do STF, o plenário pleno. Foi essa base legal, cruzada com o artigo 5º do regimento interno da Corte, que serviu de justificativa para retirar a relatoria de Mendonça e centralizar a decisão nas mãos dos atuais 10 ministros. A tese tem consistência jurídica própria, seja ou não a que prevalecerá quando Dino devolver os autos. Mas o dado relevante aqui não é o mérito processual, é que a disputa em torno de quem controla o destino de Moraes se tornou, ela mesma, o principal objeto do noticiário de uma das colunistas mais lidas do país, superando em espaço editorial o processo eleitoral que decidirá os rumos do Executivo e do Legislativo.

Deve-se convir que o espaço editorial é finito, mesmo quando a métrica já não é o centímetro da coluna impressa, mas o tempo de rolagem numa página digital. Toda escolha editorial é, por definição, uma escolha do que não cobrir com a mesma intensidade, cada matéria sobre Moraes é uma matéria a menos sobre outro assunto, e essa aritmética elementar costuma desaparecer atrás do argumento, sempre disponível, de que cada furo se justificava por si.

Os critérios de noticiabilidade que decidem o que vira pauta, como já observou Gislene Silva (2005), raramente são aplicados de forma consciente e deliberada, operam antes como rotina naturalizada da produção da notícia. Seguir de perto um escândalo que envolve um dos ministros mais poderosos do tribunal mais importante do país é função básica do jornalismo investigativo, e ninguém sensato discordaria disso. Entretanto, a regularidade estatística encontrada por Sacchetto sugere algo que a defesa pontual de cada matéria, tomada isoladamente, não capta, ou seja, um padrão de insistência que ultrapassa o que a soma das justificativas individuais explicaria.

O achado, aliás, não é isolado no tempo. Pesquisa de Fabiana Luci de Oliveira (2017) sobre a cobertura que a Folha fez do STF entre 1999 e 2014 já identificara o julgamento de autoridades com foro privilegiado como o tema mais recorrente da cobertura do tribunal, à frente inclusive da judicialização de políticas públicas, e associara essa ênfase a um efeito de personalização da instituição na figura de seus ministros, que tende a ofuscar o caráter colegiado das decisões em favor de rostos e biografias individuais. Um veículo escolhe, dia após dia, onde apertar, e a métrica de Sacchetto, com todas as ressalvas que uma postagem de mídia social exige em relação a um artigo submetido a revisão por pares, torna visível uma escolha que normalmente permanece invisível, dissolvida na aparente naturalidade do fluxo noticioso.

Há um contraponto que a própria trajetória recente de Malu Gaspar impõe ao argumento, pois a mesma jornalista que produziu esse volume de cobertura sobre Moraes tornou-se, por força do próprio impacto de suas matérias, alvo de desinformação em que vídeos antigos de uma cirurgia que ela realizou foram recentemente ressignificados por perfis nas mídias sociais para sugerir, falsamente, que a Globo a teria afastado por causa de seus embates ao vivo sobre o caso. A jornalista que expõe se torna, ela também, objeto de exposição distorcida, e o mesmo ecossistema digital que produziu o estudo de Sacchetto, com seu aparato de dendrogramas e testes qui-quadrado, é o que também produziu e disseminou a fake news sobre sua suposta censura. Não existe coincidência confortável nisso, apenas o mesmo terreno instável onde circulam, lado a lado, ferramentas de análise textual rigorosas e boatos fabricados a partir de imagens fora de contexto.

O que Sacchetto formula em números é, no fundo, um problema de proporção, e a dimensão, ao contrário do fato isolado, não se deixa justificar matéria por matéria. Um único episódio jurídico-político, por mais grave que seja, por mais desdobramentos institucionais que produza, ocupar mais espaço editorial do que a disputa pelo poder Executivo nacional não é uma anomalia que se explique pela soma das urgências diárias de uma redação, mas é um resultado agregado, visível apenas quando alguém se dá ao trabalho de somar quatro meses de produção e perguntar para onde, no conjunto, aquele esforço convergiu.

Sendo assim, o que esse tipo de desproporção revela sobre os critérios de noticiabilidade que operam, nem sempre de forma consciente, e por isso mesmo mais difíceis de examinar, nas redações brasileiras? A resposta não está pronta na CHD, nem na rede de Ochiai, muito menos no dendrograma que separa os textos em galhos temáticos. Está, talvez, no reconhecimento de que a quantificação, por mais neutra que pareça em sua roupagem estatística, é também uma forma de argumento, um raciocínio que Sacchetto constrói com um instrumental técnico emprestado das ciências sociais, mas que carrega, como qualquer leitura de dados, uma aposta interpretativa sobre o que conta como excesso e o que conta como zelo profissional. Entre a vigilância legítima sobre o poder e a fixação editorial em um único personagem da crise institucional brasileira, a linha é mais tênue do que qualquer percentual consegue traçar sozinho.

Referências

OLIVEIRA, Fabiana Luci de. Judiciário e política no Brasil contemporâneo: um retrato do Supremo Tribunal Federal a partir da cobertura do jornal Folha de S. Paulo. Dados – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, v. 60, n. 4, p. 937-975, out./dez. 2017. https://doi.org/10.1590/001152582017139.

REINERT, Max. Alceste, une méthodologie d’analyse des données textuelles et une application. Bulletin de Méthodologie Sociologique, v. 26, n. 1, p. 24-54, 1990. https://doi.org/10.1177/075910639002600103.

SILVA, Gislene. Para pensar critérios de noticiabilidade. Estudos em Jornalismo e Mídia, Florianópolis, v. 2, n. 1, p. 95-107, 2005.

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Ramsés Albertoni é Professor, Pesquisador de Pós-doutorado em Comunicação (PPGCOM-UFJF), Pós-doutorado em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF).