Sábado, 26 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1407

Zuenir Ventura, o jornalista que ficava depois da notícia

(Foto:
Tomaz Silva/Arquivo/Agência Brasil)

 

Todo repórter que passa tempo suficiente numa apuração de risco chega perto da pergunta que Zuenir Ventura teve de responder em 1989: o que fazer quando a distância profissional deixa de proteger e passa a ser uma forma de omissão?

Não se trata de ética abstrata, mas de uma escolha concreta, dessas que aparecem poucas vezes na carreira de um jornalista e quase sempre chegam acompanhadas de risco e de nenhuma resposta pronta. Foi o que aconteceu quando Zuenir investigava no Acre o assassinato de Chico Mendes e encontrou uma testemunha fundamental do crime: Genésio Ferreira da Silva, um adolescente de 13 anos que estava ameaçado por ter presenciado o assassinato.

O caminho mais seguro seria registrar o depoimento, documentar a ameaça, publicar a reportagem e voltar para a redação. A notícia ficaria preservada; a vida do menino, por conta de outros. Zuenir fez o contrário. Depois de buscar uma solução para garantir a segurança de Genésio ainda no Acre e diante da informação de que havia um plano para matá-lo, levou o garoto para o Rio de Janeiro, onde passou a viver com sua família e ficou sob sua responsabilidade até a maioridade.

Anos depois, ao relembrar a cena — “cheguei com o Genésio debaixo do braço, apresentei para minha mulher e meus dois filhos” —, resumiu o dilema numa frase que vale mais do que muitos tratados de ética: “Era reportar uma morte ou evitá-la.”

Essa decisão não resolve o problema da objetividade, e talvez seja justamente aí que esteja sua força. Zuenir não propôs uma regra aplicável por qualquer repórter em qualquer circunstância. Tomou uma decisão diante de um caso concreto e assumiu a responsabilidade pelo que havia descoberto. Naquele momento, a reportagem deixou de ser apenas técnica porque havia encontrado uma pessoa. Quando isso acontece, a relação entre o jornalista e a realidade que investiga deixa de caber inteira na ideia de distância profissional.

Essa dimensão de sua obra ganha peso especial num momento em que a rapidez do ciclo jornalístico transforma acontecimentos em produtos de curta duração. Apurar, checar, publicar e seguir adiante tornou-se parte de uma engrenagem necessária diante de um fluxo permanente de informação. O problema começa quando esse ritmo deixa de ser apenas uma característica do meio e passa a determinar a profundidade do trabalho. Zuenir fazia o movimento inverso: permanecia diante do acontecimento até descobrir o que havia além dele.

A cobertura de Chico Mendes é um exemplo. A série publicada no Jornal do Brasil, em 1989, depois de semanas de apuração, recebeu os prêmios Esso e Vladimir Herzog. Quinze anos depois, em 2003, Zuenir voltou ao Acre para concluir a grande reportagem, revisitando lugares e personagens ligados ao crime. O livro “Chico Mendes — Crime e Castigo” incorporou esse retorno como sua terceira parte, intitulada justamente “15 anos depois”.

A mesma disposição para permanecer diante do acontecimento aparece em “1968 — O Ano que Não Terminou”, publicado em 1988, e em Cidade Partida, de 1994, fruto de uma longa aproximação com Vigário Geral depois da chacina de 1993. Nesse último trabalho, Zuenir frequentou a comunidade por meses, conversou com moradores e procurou compreender as engrenagens da violência carioca. O livro recebeu o Prêmio Jabuti de Reportagem.

Nos três casos, o acontecimento era apenas a porta de entrada. O assassinato de Chico Mendes, o ano de 1968 e a chacina de Vigário Geral não encerravam a pergunta; abriam outras. O que havia por trás daquele fato? Que relações o tornaram possível? Quem não estava sendo ouvido? O que restaria quando o assunto saísse das manchetes? Recusar o acontecimento como explicação suficiente talvez seja um dos traços mais importantes de sua obra — e é também onde ela encontra a democracia.

Quando uma sociedade perde a memória, não desaparece apenas a informação. Com ela, enfraquece também a capacidade de reconhecer padrões.

Quando os detalhes de uma violência se perdem, fica mais difícil compreender como ela foi produzida e reconhecer seus sinais quando voltam a aparecer.

“1968” permanece relevante por essa razão: não apenas reconstruiu acontecimentos políticos e culturais de um período decisivo, mas devolveu a esse ano pessoas, conflitos, expectativas e consequências que poderiam ter sido reduzidos a uma sequência de datas. Publicado em 1988, o livro tornou-se uma das obras mais conhecidas de sua trajetória.

Zuenir conhecia por experiência própria o que significava trabalhar sob repressão. Foi preso durante a ditadura e, em 1976, esteve entre os jornalistas que assinaram o manifesto “Em Nome da Verdade”, que contestava a versão oficial sobre a morte de Vladimir Herzog. O documento reuniu 1.004 assinaturas.

Esse episódio importa menos como medalha biográfica do que como chave de leitura: ele não observava de fora os problemas sobre os quais escrevia. Sua trajetória profissional começou no arquivo da Tribuna da Imprensa, em 1956, e passou por redações como Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil e O Globo.

Por isso, é insuficiente arquivá-lo como “um grande jornalista de outra geração”. A expressão parece elogiosa, mas contém uma armadilha: coloca sua obra à distância, como se suas perguntas pertencessem a um ofício que já não existe.

As redações atuais dispõem de ferramentas que ele jamais teve — bancos de dados, redes de verificação, velocidade e alcance instantâneos —, mas continuam diante da mesma tentação: confundir publicação com compreensão.

Uma notícia pode ser verdadeira e ainda insuficiente. Pode informar sobre um episódio sem explicar por que ele ocorreu, reproduzir uma declaração sem investigar suas consequências, apresentar um número sem revelar o que ele significa ou registrar uma violência sem perguntar quais estruturas a produziram.

Ao se limitar a transportar acontecimentos, a profissão perde parte de sua função pública. Zuenir fazia outra coisa: permanecia diante da história até que ela começasse a revelar suas camadas.

É por isso que a história de Genésio não deveria ser reduzida a uma passagem comovente de uma reportagem premiada. Ela contém uma pergunta que segue aberta: quando a distância profissional protege a verdade e quando apenas poupa o repórter do desconforto de agir? Não existe resposta universal — e talvez seja melhor assim. Zuenir não deixou um manual para resolver a exceção. Deixou uma decisão tomada diante dela.

É uma herança incômoda e, por isso mesmo, mais útil. A ética jornalística precisa de princípios, mas eles só são testados de verdade quando encontram pessoas, circunstâncias e consequências que não cabem numa norma. É nesse momento que a profissão revela como lida com a responsabilidade que reivindica. Zuenir compreendeu: sua apuração nunca parecia encerrada enquanto ainda houvesse alguém escondido atrás do fato, uma história por explicar ou uma versão por confrontar.

Talvez esteja aí a razão mais profunda de sua importância para a democracia brasileira. Não porque todo repórter deva pensar como ele, nem porque toda apuração precise virar livro, muito menos porque a distância profissional deva ser sempre abandonada. A importância está em outro lugar: uma imprensa democrática precisa de profissionais dispostos a permanecer diante daquilo que ainda não entenderam, capazes de aceitar que o fato não termina na publicação e dispostos a perguntar o que existe depois da primeira versão. Precisa, sobretudo, resistir à ideia de que uma história pode ser descartada apenas porque o ciclo da notícia mudou.

Zuenir começou a carreira no arquivo de um jornal e terminou deixando um legado muito maior: uma obra construída sobre acontecimentos que poderiam ter desaparecido na velocidade do tempo, mas que ele decidiu investigar até que ganhassem outra duração. Sua morte, aos 95 anos, encerra uma trajetória, mas deixa uma pergunta para uma profissão que continua enfrentando o mesmo dilema, ainda que em circunstâncias diferentes: diante de uma informação capaz de mudar a compreensão de uma história, de uma fonte que corre risco por causa dela ou de uma versão publicada que não explica o acontecimento, qual é a responsabilidade de quem descobriu tudo isso?

Zuenir respondeu a essa pergunta uma vez, numa circunstância concreta. O jornalismo brasileiro não precisa transformar sua decisão em regra para reconhecer o que ela revela: há momentos em que publicar uma história é apenas o começo da responsabilidade de quem a descobriu.

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Marcelo Copelli, jornalista correspondente na Europa, editor de Política e pesquisador na área de Comunicação.