Liberdade de fazer rir
As revistas e os jornais do final de semana deram ampla repercussão à decisão do ministro Carlos Ayres Britto, do Supremo Tribunal Federal, que concedeu liminar liberando o humor político no rádio e na televisão durante o período de campanha eleitoral.
A revista Época destacou a rapidez da decisão individual do ministro, que se antecipou ao julgamento em plenário, onde uma Ação Direta de Inconstitucionalidade, impetrada pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, Abert, teria de ser aprovada por maioria de votos.
A decisão de Ayres Britto, tomada em função da pressa em restituir o direito aos humoristas antes que se acabe a própria razão da censura, ou seja, a campanha eleitoral, atropelou o processo.
A liminar foi concedida em apenas 48 horas.
A mesma agilidade não tem sido possível em outro caso de grande repercussão envolvendo as eleições deste ano: o julgamento dos candidatos condenados em órgãos colegiados da Justiça, com o cancelamento de suas inscrições, conforme determina a Lei da Ficha Limpa.
Mas esse é um problema da Justiça, que só entra no cenário destas observações quando se torna assunto da imprensa.
Quanto à decisão que libera os humoristas da televisão e do rádio para fazer suas graças com candidatos e partidos, o que faltou aos jornais e revistas foi esclarecer os leitores sobre um equívoco que vem se repetindo desde que a proibição foi determinada pela Justiça Eleitoral.
Sempre que o assunto entra no noticiário, entrevistados e comentaristas misturam humor com jornalismo, afirmando que a aplicação da lei de 1997 que proíbe piadas com candidatos restringe a liberdade de imprensa.
É preciso esclarecer, de uma vez por todas, que humorismo não é necessariamente jornalismo.
Um programa de televisão que edita gravações, incluindo chifres, nariz de palhaço e outros adereços às imagens de entrevistados, não pode ser considerado jornalismo.
A liminar do ministro Ayres Britto restaura o direito de expressão dos humoristas.
Não tem nada a ver com liberdade de imprensa.
Jornalismo sem jornalistas
Alberto Dines:
– O fim de semana foi marcado em todo o mundo por um espetáculo sem precedentes, autêntico reality-show, dramático, emocionante, angustiante, literalmente sufocante. Jornais, revistas e televisão mostraram um vídeo gravado nas profundezas do inferno a 700 metros de profundidade pelos mineiros chilenos soterrados há 25 dias na mina de cobre de San José, norte do Chile.
De acordo com as primeiras estimativas o resgate só se completará dentro de três meses. Situação inédita, porque os sobreviventes estão sendo atendidos, medicados, vestidos e alimentados continuamente através de estreitos condutos e sondas ligadas à superfície. Experimentados, treinados para emergências, os mineiros souberam organizar-se para sobreviver mas cinco já apresentam sinais de depressão psicológica. Perderam 10 quilos cada um nesta primeira fase.
O vídeo que gravaram na quinta-feira acalmou as famílias mas também exacerbou o voyeurismo da mídia. Esta história ficará semanas em cartaz. No Chile, por solidariedade, no resto do mundo por curiosidade, depois talvez por morbidez. Na capa, Veja mencionou a “mais longa e documentada experiência humana de isolamento coletivo” e lembrou que o resgate poderá trazer ensinamentos para a medicina, psicologia, viagens espaciais. O jornalismo sem jornalistas está na moda: é espetacular, incessante e, sobretudo, barato.